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# Um dia na contra-mão
- URL: https://www.nervvo.com.br/um-dia-na-contra-mao/
- Published: 2026-08-10T17:01:17.000Z
- Updated: 2026-08-11T01:01:40.000Z
- Author: Franklin Lopes
- Tags: Cidade, Crônica

O quarto esta claro. Que dia é hoje? Terça? Quarta. É hoje. Que horas são? Merda! Num mesmo impulso joga as cobertas, salta da cama, e se mete no banho. A água demora a esquentar. Molha o rosto, o cabelo, passa a mão debaixo dos braços e pronto. Enrola-se na toalha e minutos depois aperta o nó da gravata que ainda carrega o laço da loja. Calça o sapato aos pulos a caminho da sala. Procura a chave. Jurava que tinha deixado na mesa. Revira lugares improváveis. Passa a mão entre as almofadas. Nada. Olha mais uma vez no relógio. Enfia um pedaço de papel no bolso. Sai. Bate a porta. Deixa sem trancar.

O sol já vai alto. Taxi é uma fortuna. Corre para o metrô impaciente com as pessoas que caminham sem pressa. Desce as escadas saltando os degraus de três em três. De longe analisa a barreira de catracas em busca da mais vazia. Geralmente são as do canto, mas quando se está com pressa tudo anda na contra-mão. Espreme-se no espaço entre as filas, corta na frente de uma senhora gorda de lenço na cabeça, pede desculpas já se enroscando entre os braços da catraca. Leva a mão no bolso traseiro direito e se desalinha. Não acredito! Sai da fila sob os achincalhos da dona gorda. Alivia o nó da gravata em busca de solução. Bate no corpo em revista, enfia as mãos nos outros bolsos, gasta o que lhe sobra de esperança.

De olhos vermelhos e testa suada, explica o caso para o funcionário que não se comove com a situação. Só resta voltar em casa. Avança cambaleante rumo a escada. Refuga. Não há tempo. Quem sabe pedir para alguém. Observa o rio de corpos em busca de benevolência. Sente-se desconcertado só de ensaiar a mendicância. Já bastava o não do funcionário. 

Olha para os lados disfarçando o afligimento. Afasta até um ponto em que a correnteza de passantes não esta tão densa. Atravessa sem sobressalto para a margem oposta e espera o melhor momento. Olhando para baixo feito mais um, entra na corrente. A cada passo ensaia o movimento. Chega a sua vez e não titubeia. Apoia as mãos, flexiona os joelhos, busca propulsão e, num balanço ligeiro, pula a barreira com certa elegância. Contem os passos para não despertar suspeitas, mas é só entrar no corredor que solta as rédeas. Corre para a plataforma na certeza de estar sendo perseguido. Ainda longe, ouve o som das portas prestes a fechar. Alça vôo sobre mais uns poucos degraus. Fixa o alvo e se lança virando o corpo de lado para encaixar na fresta que resta. A entrada acrobática não chama a atenção. Apoia as mãos nos joelhos. Encontra empatia nos anúncios que lhe sorriem.

O pé pulsa apertado. Talvez por falta de tato com o couro ou pelo ritmo das passadas que lhe traziam. Que dia para sair todo abotoado. A camisa gruda nas costas, limita os movimentos, fica transparente, amarrota, revela o descompasso. Respira grande, solta um botão, tenta afrouxar a angustia. Tira o paletó e o enrola com cuidado no braço. Uma voz morta anuncia o destino. A respiração corta. Checa o mapa, incrédulo. É fato. Esta indo para o lado errado. Estapeia a testa. Busca espaço diante da porta. No primeiro vão, dispara. Corre. Sobe. Desce. Espera. Cala o grito. Morde o punho. Respira. Entra. De volta para o começo.

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Evita olhar no relógio. Distrai com um menino que distribui pedaços de papel gastos escritos a mão entre os passageiros. Uma senhora adverte que não pode fazer isso ali. Com indiferença, o menino recolhe os bilhetes e junta as moedas na mão. Sem muito a ofertar, devolve o bilhete e compartilha a penúria. O trem sacode. Papéis, moedas e moleque se espalham pelo chão. Abaixa com dificuldade, preso na camisa molhada, e recolhe o que esta a seu alcance. Era só esquecer de devolver alguns trocados que amenizaria o problema. Entrega tudo ao menino em um mesmo punhado: moedas, moral, papeis, vergonha.

Chega na estação. Tenta sair. É contido pela ânsia de tantos querendo entrar. Coloca mais intenção no gesto. Debate-se entre ombros, força a passagem, mais duas braçadas e emerge do lado de fora. O paletó desenrola do braço e fica preso na massa. Puxa com força, já sem esconder o desespero. Mais uma vez corre. Escala a escada rolante disputando qualquer vão. Gira a catraca em busca de saída. Os olhos fitam o segurança, disfarça. Sobe as escadas quase ofuscado com a luz de fora. Procura o ponto de ônibus. Entra no primeiro que aparece. Sabe que não vai longe. Controla o fôlego para ganhar tempo na explicação. O ônibus parte. O cobrador coça o bigode e fala que por ele até tudo bem, mas se deixa um, vira festa e é ai que a coisa complica. De qualquer forma entende o pecado, diz pra chegar pro lado e descer um ponto além.

Restam quatro quadras. O direito de ir e vir nunca pareceu tão desigual. Ao menos os passos não são cobrados, se bem que, a julgar pelas condições das calçadas, é de se questionar tamanha generosidade. O paletó se enlaça noutro braço para equilibrar o peso. A gravata dança leve sobre os ombros em contraste com a pisada. A cada cruzamento, dilui a ansiedade andando em círculos. Esperar que os carros passem parece tão absurdo. O semáforo sabe a quem servir. E aquele na bicicleta? Filho da puta é ligeiro. Pedala nas brechas que o asfalto dá sem esperar concessão.

Esbaforido, atinge o endereço que carrega no papel já dissolvendo no bolso. Confere as horas. Trinta minutos de atraso. Para diante da porta automática. Apruma-se. Seca o rosto, limpa a mão na calça, alinha o cabelo, se enforcar com a gravata, o botão fica aberto. Veste o paletó sobre a camisa ensopada. Deixa escapar um gemido. 

Atravessa. O ar gelado arrepia. O barulho dos carros cede espaço para o bate seco dos saltos. O segurança aponta a recepção. A moça o recebe sem tirar o olho do monitor. Diz a que vem, ainda organizando o fôlego. Primeira vez? Sim. Documento com foto para o cadastro, por favor. Gargalha. Documento com foto? Documento com foto? Não tenho! Então não dá. Deixa pra lá. 

Volta para o lado de fora. Uma lufada de fumaça, calor e barulho lhe abraça. Banco não há. Senta num pedaço de grama qualquer e tenta se confortar. Lágrima e suor se afagam, contornam o rosto, saltam do queixo e repousam na gravata. Um vulto faz sombra em sua comiseração. Senhor? Senhor? Levanta a cabeça com ar de embriaguez. Não pode sentar na grama!