# Nervvo > Um estúdio de pesquisa e produção de conteúdo orientado por uma questão: Do que é feita a vida comum? Public Ghost content for AI and LLM tooling. This file includes a bounded export of public pages first, then recent public posts. Append `.md` to any post or page URL to get the content in Markdown (for example, `/example-post.md`). ## Pages ### Sobre URL: https://www.nervvo.com.br/about/ Last updated: 2026-07-30T00:18:21.000Z A Nervvo é um estúdio de pesquisa e produção de conteúdo dedicado à compreensão da **vida comum**. Partimos da ideia de que o cotidiano não é apenas o pano de fundo da existência, mas a matéria viva a partir da qual ela se realiza. É nos gestos que se repetem, nos objetos que nos acompanham, nos rituais que organizam nossos dias e nas pequenas escolhas que fazemos que a cultura ganha corpo, o desejo encontra forma e o mundo se torna habitável. Por isso, dirigimos nossa atenção ao que quase sempre passa despercebido. Afinal, as transformações culturais raramente começam nos grandes acontecimentos. Antes de ganharem nome, elas se insinuam nos gestos, nas paisagens e nas sensibilidades que atravessam a vida comum. Aqui você encontrará ensaios, pesquisas, notas de campo e reflexões que transitam entre antropologia, psicanálise, filosofia e cultura material. Um espaço dedicado a observar aquilo que se repete para compreender o que está mudando. Ao assinar a Nervvo, você ajuda a sustentar um projeto independente de pesquisa e produção de conhecimento. Cada assinatura torna possível que esse trabalho continue existindo, ampliando investigações e publicando novos conteúdos. ## **Acesso ao acervo completo** Sua assinatura dá acesso a todos os textos já publicados e a tudo o que ainda está por vir. Um arquivo vivo, construído continuamente a partir da observação da vida comum. ## **Novos conteúdos, direto no seu e-mail** Cada novo ensaio chega diretamente à sua caixa de entrada, sem depender dos algoritmos das redes sociais ou do ritmo acelerado dos feeds. ## **Uma comunidade de pesquisadores** A Nervvo reúne pessoas interessadas em compreender o comportamento humano, a cultura e a experiência cotidiana para além das explicações mais imediatas. Se um texto provocar uma pergunta, uma discordância ou uma nova perspectiva, a conversa continua por e-mail. Ela faz parte do próprio projeto. Obrigado por fazer parte desta comunidade. ### Ensaios URL: https://www.nervvo.com.br/ensaio/ Last updated: 2026-07-29T23:50:15.000Z _No content available._ ### Séries URL: https://www.nervvo.com.br/series/ Last updated: 2026-09-03T18:59:46.000Z _This page is for subscribers only._ ### Estudos URL: https://www.nervvo.com.br/estudos/ Last updated: 2026-07-28T18:44:02.000Z _This page is for paying subscribers only._ ### Autores URL: https://www.nervvo.com.br/authors/ Last updated: 2026-07-30T00:11:44.000Z _No content available._ ### Contato URL: https://www.nervvo.com.br/contato/ Last updated: 2026-07-29T23:39:26.000Z Deixe aqui sua mensagem. Entraremos em contato em breve ### Alguns Clientes e Parceiros URL: https://www.nervvo.com.br/clientes-e-parceiros/ Last updated: 2026-07-30T00:26:16.000Z ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/07/_Apresentac--a--o-Institucional--Nervvo.jpg) ### Apresentação institucional URL: https://www.nervvo.com.br/apresentacao-institucional/ Last updated: 2026-08-04T17:59:10.000Z [Abrir PDF em tela cheia ](https://www.nervvo.com.br/content/files/2026/08/%5FApresentac--a--o-Institucional--Nervvo.pdf#toolbar=0&navpanes=0) ### Assine a Nervvo e faça parte deste observatório da vida comum URL: https://www.nervvo.com.br/newsletter-subscribe-section/ Last updated: 2026-08-05T15:38:05.000Z _No content available._ ### Crônicas URL: https://www.nervvo.com.br/cronicas/ Last updated: 2026-08-12T18:41:40.000Z _No content available._ ## Posts ### EPISÓDIO 02: A Sala URL: https://www.nervvo.com.br/episodio-02-a-sala/ Last updated: 2026-09-21T19:32:52.000Z Diferente de outros cômodos da casa que se distinguem por suas funções, a sala se organiza em torno das interações que acomoda. Um mesmo espaço pode servir de sala de visita, sala de TV, sala de jantar. Essa elasticidade faz com que a sala ganhe um nome até quando não tem uma função clara. Nesse contexto, se apresenta como sala de estar ou sua variante anglófona ainda mais interessante: living room. Estas variações sustentam que a sala é capaz de alargar suas funções para sustentar a presença e até o simples desdobrar da vida no tempo. É isso que a torna tão relevante dentro da cartografia doméstica. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF9177-Enhanced-NR.jpg) Ao nos permitir simplesmente estar ou viver, a sala abre espaço para o ócio. Na sala podemos ficar sem esperar por nada, sem nos fechar a nada ou nos submeter a nada. Lá podemos ficar sozinhos, mas abertos à interação com outros integrantes da casa; descansando, mas livres de toda a preparação que a cama sugere; comendo distantes das formalidades da mesa; olhando para a TV, o celular, o livro, a janela ao mesmo tempo com uma atenção frouxa e descompromissada; tudo isso sem despertar qualquer estranheza ou inadequação. Existe certa informalidade na sala que a torna um lugar acolhedor simplesmente por nos exigir pouco em termos de rituais. É como se ela acomodasse uma boa dose de espontaneidade, em que as regras podem ser flexibilizadas em favor da experiência e da interação. Pode-se dormir, comer, festejar, jogar, brincar, assistir, discutir, receber e relaxar em cima de um mesmo sofá. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF4166-1.jpg) É para lá que vamos, muitas vezes, quando chegamos exaustos e queremos apenas nos reorganizar antes de nos engajarmos em mais atividades. É lá que tiramos os sapatos, afrouxamos os botões, colocamos o pé para cima, cerramos os olhos por um momento e saímos brevemente da postura que a vida adulta nos pede. A nossa relação com a sala também se manifesta na expressão “fazer sala.” É como se a sala se mantivesse aberta, disponível, inacabada, incompleta, e só pudesse encontrar seu ofício a partir da intenção de seus ocupantes. Nenhum outro espaço se permite fazer-se a cada soar da campainha ou interfone, hoje muitas vezes antecipados por um breve “cheguei” na tela. Fazer sala não se limita ao ato de receber. Fazer sala nos exige mais. É preciso fazer a visita se sentir confortável, à vontade, como se estivesse na própria casa. É preciso sustentar o vínculo durante a espera, oferecer um café, um chá, uma água, mostrar o caminho do banheiro, talvez. Há espaço ainda para engajar-se num papo qualquer cuja função é apenas cobrir o silêncio até que o motivo real da visita se concretize ou até que se atravesse esse preâmbulo entre a cerimônia da recepção e a integração final ao universo privado. Fazer sala é quase um processo de aclimatação entre o que vem de fora e o que se vivencia na intimidade da casa. Independentemente das maneiras de cada um, ninguém faz sala sozinho. E talvez aqui a sala encontre sua função mais cristalizada: reunir pessoas. Neste papel, a sala se estende para além do contexto residencial. Temos a sala de aula, a sala de reunião, a sala de espera e até, em sua versão mais coletiva, o salão, que só pelo aumentativo já mostra a intensidade das interações, tal qual o salão de festas, um dos lugares mais disputados de tantos prédios e condomínios que proliferam por aí e que tentam compensar a diminuição das salas dos apartamentos. O salão de festas, aliás, ilustra bem o processo de esvaziamento de certas esferas da vida doméstica dos apartamentos para que sejam devolvidas como serviços condominiais, junto com a lavanderia, brinquedoteca, espaço gourmet… O caráter fronteiriço que a sala carrega entre sociabilidade e intimidade se reflete ainda na curadoria dos objetos dispostos ali que se equilibram entre as contingências do dia a dia e a sustentação de uma imagem projetada de família. As lembranças de viagem, os livros de arte na mesa de centro, os quadros nas paredes, as fotos de família, as garrafas de bebida, as flores de plástico, os vasos de planta, as imagens de santo, as televisões cada vez maiores, o console do videogame, a manta encobrindo o puído do sofá ou o guardando das brincadeiras de criança e das migalhas de domingo, a estante para onde as atenções parecem se voltar, o controle perdido no vão das almofadas, o prato largado no rack… ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/untitled-124.jpg) Esse emaranhado transforma a sala num espaço de disputa tácita sobre quem escolhe o que assistir, qual o nível de desordem permitido, de quem é a melhor poltrona, quando se pode jogar videogame, o que se pode ou não comer na sala e como ela deve se apresentar diante de uma visita. A sala é um amálgama entre cenário, vestígio e território no qual as interações precisam ser minimamente consensuadas. A sala funciona como um laboratório para a vida pública, uma espécie de estação de aprendizado social. Ao interagir uns com os outros nesse ambiente, os membros daquele núcleo constroem juntos os limites do que é ou não aceitável diante do outro, qual o vocabulário e o tom de voz apropriado. Assim, aprimora-se o gerenciamento das impressões, lição útil para saber se comportar em outras salas. É interessante notar que as cozinhas, ao se abrirem para a sala, como é tendência nas plantas atuais, também se abrem a suas demandas. A conhecida linha branca ganha cor, a funcionalidade passa a respeitar alguma harmonia cenográfica e a louça suja em cima da pia perde um pouco da tolerância que outrora desfrutava quando estava mais distante dos olhares alheios. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/untitled-15.jpg) A sala é, portanto, um lugar marcado por mediações entre os que estão e os que chegam, o coletivo e o íntimo, as regras e as exceções, e assim nos ajuda a costurar os limites da interação. É por isso que ela se mantém central, mesmo quando a ideia de assistir junto, de estar junto, de se reunir em torno de um mesmo assunto se fragmenta em telas individuais, algoritmos e bolhas de interesse. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/untitled-6.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/untitled-151.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/untitled-21.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/untitled-165.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF7823.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF5481.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF5230.jpg) A sala nos ensina sobre convívio e mediação. Quando chegamos, nos permite entrar sem invadir. Quando recebemos, entrega a nós a escolha sobre o que pode ser acessado. Ninguém passa despercebido pela sala. ### EPISÓDIO 01: O Quarto URL: https://www.nervvo.com.br/episodio-01-o-quarto/ Last updated: 2026-09-21T18:53:29.000Z Nossa relação com o quarto se inicia antes mesmo de nascermos. Abrir espaço na casa para a chegada de uma criança começa, para muitas famílias, com a organização do quarto, seja ele só para o bebê, compartilhado com os irmãos ou resumido a um berço do lado da cama dos pais. Independentemente da disposição e dos recursos desse lar que se acomoda em torno do rebento, o quarto, antes mesmo de chegarmos ao mundo, já nos apresenta uma série de projeções, limitações e expectativas que inscrevem sobre nós um ponto de partida. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/image.png) A vida irradia a partir do quarto. É lá onde o dia nos desperta e a noite nos embala. É lá que nos entregamos aos sonhos, onde a vida pode se desdobrar sem intenção ou expectativa. É lá que nos sentimos protegidos para nos despirmos de vergonhas, enlaçados em vontades. Sabe aquela sensação de dormir na sua cama, com seu cheiro, no seu travesseiro, reconhecer os sons que te rodeiam e poder cambalear no escuro até o banheiro sem esbarrar em nada? Não há viagem ou quantidade de fios da roupa de cama que entreguem ao corpo o que ele aprendeu a encontrar no próprio quarto. De tanto nos ouvir e nos guardar, o quarto vai ganhando traços de tudo aquilo que nos emoldura em cada etapa da vida. Nasce com os anseios dos pais. Aos poucos, ganha caráter, reúne objetos e memórias que dão espessura à nossa história, mas sempre deixa uma fenda para o passado, em geral guardada em caixas que se equilibram sobre o armário, enquanto mantém o presente ao alcance das mãos. Quando fechamos a porta, destrancamos partes de nós que, em qualquer outro lugar, nos fariam experimentar a mais crua vulnerabilidade. É, aliás, entendendo o papel da porta do quarto que ganhamos noção de privacidade, essa fresta que permite modular o que pode ser visto. Assim, modelamos uma versão pública, acessível, aberta a escrutínio, montada para ser coerente e atender às expectativas; e outra particular, inacabada, salvaguardada, onde ensaiamos o que buscamos vir a ser. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF8427.jpg) Na infância, a porta é administrada por outros. A privacidade cede espaço ao cuidado. Somos corpo, sono, choro, fome e supervisão. Aos poucos, a porta surge como inscrição de subjetividade. Ao poder controlá-la, vamos tecendo nossas bordas, entendendo nossos limites e nossa permeabilidade ao que se coloca diante de nós. Esse trânsito com o quarto dialoga diretamente com o nível de autonomia que experimentamos na relação com os outros cômodos. O quarto constitui a parcela da casa sobre a qual se pode reivindicar alguma soberania. Apresenta-se como uma possibilidade de expansão material quando nada para além de suas paredes parece nos pertencer. Não à toa ele passa por tantas transformações. Os móbiles pendurados sobre o berço, os primeiros papéis rabiscados, pôsteres colados com fita adesiva, brinquedos espremidos no armário, a penteadeira cheia de novas vaidades, a coleção de latinhas, os livros que vão se tornando mais pálidos e cheios de letras, os personagens das sagas favoritas, os primeiros amores. O quarto nos veste, nos expressa, mas, de tempos em tempos, não nos serve mais e precisa ser remodelado. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF7681.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF2180.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF6263.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF8182.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF7690.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF6564.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/untitled-3.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF7322.jpg) O aumento do custo dos imóveis, as instabilidades financeiras, os divórcios e outras turbulências têm mantido o quarto da infância vivo na realidade de muitos adultos que ficam por mais tempo na casa dos pais ou retornam a ela quando a vida parece desalojada. O quarto, que já serviu de casulo para as constantes mudanças da juventude, ressurge como espaço liminar quando a cama de solteiro, o armário pequeno e os resquícios do passado sugerem uma inadequação qualquer à espera de resolução. As transformações que atravessam o quarto contemporâneo não se limitam à volta ou permanência de adultos na casa dos pais. Com a expansão da conectividade, o quarto perde a capacidade de nos isolar do mundo e isso não é trivial. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/untitled-58.jpg) Não são mais as paredes, as sombras ou as fotos enfileiradas nas prateleiras que fitamos ao dormir ou despertar. Não é mais a cama, seus lençóis e a gentil mudança de temperatura a cada volta que nos conforta e nos embala quando despertamos do nada no meio da madrugada. Não é mais aquela mancha no teto que encaramos por horas, pendulando entre o tédio e o ócio quando não queremos nada. É o celular e sua luz azulada que nos enlaça e nos enreda, tornando mais custosa essa retirada de tudo aquilo que nos atravessa. O celular se tornou um objeto onipresente, mesmo durante a noite. Em nossos momentos insones é ele que transforma um leve despertar, uma simples reacomodação na cama, um xixi rápido ou um gole d’água em horas e horas de dedo na tela sustentada a poucos centímetros do rosto, reconfigurando nossos rituais e, com eles, a forma como habitamos o tempo no quarto que já sustentou melhor momentos de silêncio, onde nada parecia acontecer. Sem a porta simbólica que o quarto nos apresenta, nos tornamos um pouco mais expostos e encontramos menos espaço para separar aquilo que nos cabe daquilo que nos sobra. Quando as paredes perdem expressão e as imagens se tornam efêmeras demais para gerar identificação, corremos o risco de deixar de sonhar com nós mesmos. ### Cidadão comum URL: https://www.nervvo.com.br/cidadao-comum/ Last updated: 2026-08-12T17:56:41.000Z A ansiedade da espera é comum. O frio e a névoa da manhã congelam os pensamentos, contraem músculos, convidam ao silêncio. O ônibus surge. Os corpos rompem a apatia, colocam-se em prontidão. Braços levantam em coreografia, apontam para frente em ritual que se repete em sincronia por aqueles perfilados ao meio-fio. Onde é que vai essa gente? Todo mundo parece tão decidido. Seria eu o único que prefere se perder a chegar todos os dias no mesmo lugar? Como sempre, tenho dificuldade para ver o destino que se aproxima. Ainda não sei se são meus óculos ou minhas posições. Titubeei, mas desta vez é este o desígnio por que aguardo. Olho no relógio e ainda cedo me atraso. Uma fila se forma em desajeitado bailado. Acabo ficando por último diante da ânsia alheia de escalar aqueles degraus. Quanta agilidade pode ter aquela senhora? A repetição é solvente de obstáculo. Entregue aos automatismos da boa educação, lanço um ‘bom dia’ ao motorista que balbucia um leve menear de cabeça. Cerra a porta, o ônibus parte. Caio em cima de alguém. Peço desculpas. Esbarrão, desculpas e eu são ignorados. Sinto o gosto amargo de me fazer objeto. Próxima marcha e me reafirmo, ressurjo. Novamente Eu sou: tranco, ruído, incômodo, ordinário, indiferente, presente. O cobrador cochila desajeitado. Aproximo o cartão do leitor com cuidado. Luz vermelha, sem saldo. Conto as moedas e me faltam vinte centavos. Toco no ombro do pobre, rasgo seu sonho com realidade. Explico a situação, recebo cara feia, respondo com gratidão. Roda a catraca e me embaraço. Rápido me ajeito, prendo a respiração, giro a mochila, ponta de pé, uma leve inclinada e passo. Me espremo com os outros. Já não preciso segurar. Sigo assim, solto, deixo a multidão me embalar. Ninguém ousa olhar nos olhos. Eu me arrisco, mas rapidamente disfarço ao ser flagrado. Olho para cima, para baixo, penso em pegar o celular. Impossível. Deixo estar. Procuro um lugar onde repousar a vista. Leio no anúncio: “Quem anda de ônibus chega mais rápido.” Acho graça sozinho. Talvez se esqueceram que o tempo é um tanto relativo quando compartilhamos toques e arrochos num trançado de pernas que, não fosse a penúria da situação, me enrubesceria o rosto. Vou quase sem graça abrindo caminho no emaranhado de corpos. Percorro o corredor, sem saber se dou a frente ou as costas. Crio critérios rápido. Começo por gênero, passo para ergonomia, termino do jeito que dá. Chego à porta traseira com ar de vitória, quase a me gabar. A porta se abre. O sol já vai alto do lado de lá. Sou expelido pra fora como quem sai do útero. Úmido, malcheiroso, amassado. Nasço cidadão a cada nova aurora. Hoje, porém, no ponto errado. Bosta! ### Um dia na contra-mão URL: https://www.nervvo.com.br/um-dia-na-contra-mao/ Last updated: 2026-08-11T01:01:40.000Z O quarto esta claro. Que dia é hoje? Terça? Quarta. É hoje. Que horas são? Merda! Num mesmo impulso joga as cobertas, salta da cama, e se mete no banho. A água demora a esquentar. Molha o rosto, o cabelo, passa a mão debaixo dos braços e pronto. Enrola-se na toalha e minutos depois aperta o nó da gravata que ainda carrega o laço da loja. Calça o sapato aos pulos a caminho da sala. Procura a chave. Jurava que tinha deixado na mesa. Revira lugares improváveis. Passa a mão entre as almofadas. Nada. Olha mais uma vez no relógio. Enfia um pedaço de papel no bolso. Sai. Bate a porta. Deixa sem trancar. O sol já vai alto. Taxi é uma fortuna. Corre para o metrô impaciente com as pessoas que caminham sem pressa. Desce as escadas saltando os degraus de três em três. De longe analisa a barreira de catracas em busca da mais vazia. Geralmente são as do canto, mas quando se está com pressa tudo anda na contra-mão. Espreme-se no espaço entre as filas, corta na frente de uma senhora gorda de lenço na cabeça, pede desculpas já se enroscando entre os braços da catraca. Leva a mão no bolso traseiro direito e se desalinha. Não acredito! Sai da fila sob os achincalhos da dona gorda. Alivia o nó da gravata em busca de solução. Bate no corpo em revista, enfia as mãos nos outros bolsos, gasta o que lhe sobra de esperança. De olhos vermelhos e testa suada, explica o caso para o funcionário que não se comove com a situação. Só resta voltar em casa. Avança cambaleante rumo a escada. Refuga. Não há tempo. Quem sabe pedir para alguém. Observa o rio de corpos em busca de benevolência. Sente-se desconcertado só de ensaiar a mendicância. Já bastava o não do funcionário. Olha para os lados disfarçando o afligimento. Afasta até um ponto em que a correnteza de passantes não esta tão densa. Atravessa sem sobressalto para a margem oposta e espera o melhor momento. Olhando para baixo feito mais um, entra na corrente. A cada passo ensaia o movimento. Chega a sua vez e não titubeia. Apoia as mãos, flexiona os joelhos, busca propulsão e, num balanço ligeiro, pula a barreira com certa elegância. Contem os passos para não despertar suspeitas, mas é só entrar no corredor que solta as rédeas. Corre para a plataforma na certeza de estar sendo perseguido. Ainda longe, ouve o som das portas prestes a fechar. Alça vôo sobre mais uns poucos degraus. Fixa o alvo e se lança virando o corpo de lado para encaixar na fresta que resta. A entrada acrobática não chama a atenção. Apoia as mãos nos joelhos. Encontra empatia nos anúncios que lhe sorriem. O pé pulsa apertado. Talvez por falta de tato com o couro ou pelo ritmo das passadas que lhe traziam. Que dia para sair todo abotoado. A camisa gruda nas costas, limita os movimentos, fica transparente, amarrota, revela o descompasso. Respira grande, solta um botão, tenta afrouxar a angustia. Tira o paletó e o enrola com cuidado no braço. Uma voz morta anuncia o destino. A respiração corta. Checa o mapa, incrédulo. É fato. Esta indo para o lado errado. Estapeia a testa. Busca espaço diante da porta. No primeiro vão, dispara. Corre. Sobe. Desce. Espera. Cala o grito. Morde o punho. Respira. Entra. De volta para o começo. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/08/sem-volta-1-2--1--1.jpg) Evita olhar no relógio. Distrai com um menino que distribui pedaços de papel gastos escritos a mão entre os passageiros. Uma senhora adverte que não pode fazer isso ali. Com indiferença, o menino recolhe os bilhetes e junta as moedas na mão. Sem muito a ofertar, devolve o bilhete e compartilha a penúria. O trem sacode. Papéis, moedas e moleque se espalham pelo chão. Abaixa com dificuldade, preso na camisa molhada, e recolhe o que esta a seu alcance. Era só esquecer de devolver alguns trocados que amenizaria o problema. Entrega tudo ao menino em um mesmo punhado: moedas, moral, papeis, vergonha. Chega na estação. Tenta sair. É contido pela ânsia de tantos querendo entrar. Coloca mais intenção no gesto. Debate-se entre ombros, força a passagem, mais duas braçadas e emerge do lado de fora. O paletó desenrola do braço e fica preso na massa. Puxa com força, já sem esconder o desespero. Mais uma vez corre. Escala a escada rolante disputando qualquer vão. Gira a catraca em busca de saída. Os olhos fitam o segurança, disfarça. Sobe as escadas quase ofuscado com a luz de fora. Procura o ponto de ônibus. Entra no primeiro que aparece. Sabe que não vai longe. Controla o fôlego para ganhar tempo na explicação. O ônibus parte. O cobrador coça o bigode e fala que por ele até tudo bem, mas se deixa um, vira festa e é ai que a coisa complica. De qualquer forma entende o pecado, diz pra chegar pro lado e descer um ponto além. Restam quatro quadras. O direito de ir e vir nunca pareceu tão desigual. Ao menos os passos não são cobrados, se bem que, a julgar pelas condições das calçadas, é de se questionar tamanha generosidade. O paletó se enlaça noutro braço para equilibrar o peso. A gravata dança leve sobre os ombros em contraste com a pisada. A cada cruzamento, dilui a ansiedade andando em círculos. Esperar que os carros passem parece tão absurdo. O semáforo sabe a quem servir. E aquele na bicicleta? Filho da puta é ligeiro. Pedala nas brechas que o asfalto dá sem esperar concessão. Esbaforido, atinge o endereço que carrega no papel já dissolvendo no bolso. Confere as horas. Trinta minutos de atraso. Para diante da porta automática. Apruma-se. Seca o rosto, limpa a mão na calça, alinha o cabelo, se enforcar com a gravata, o botão fica aberto. Veste o paletó sobre a camisa ensopada. Deixa escapar um gemido. Atravessa. O ar gelado arrepia. O barulho dos carros cede espaço para o bate seco dos saltos. O segurança aponta a recepção. A moça o recebe sem tirar o olho do monitor. Diz a que vem, ainda organizando o fôlego. Primeira vez? Sim. Documento com foto para o cadastro, por favor. Gargalha. Documento com foto? Documento com foto? Não tenho! Então não dá. Deixa pra lá. Volta para o lado de fora. Uma lufada de fumaça, calor e barulho lhe abraça. Banco não há. Senta num pedaço de grama qualquer e tenta se confortar. Lágrima e suor se afagam, contornam o rosto, saltam do queixo e repousam na gravata. Um vulto faz sombra em sua comiseração. Senhor? Senhor? Levanta a cabeça com ar de embriaguez. Não pode sentar na grama! ### Somos analfabetos de experiências URL: https://www.nervvo.com.br/somos-analfabetos-de-experiencias/ Last updated: 2026-09-03T18:50:48.000Z Tem uma frase do Mia Couto que, quando a li pela primeira vez, fiquei preso nela por dias. Não me furto a repeti-la sempre que me sopra uma oportunidade. A frase é a seguinte: > *“*Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país. Nessas regiões encontro gente que não sabe ler livros. Mas que sabe ler o seu mundo. Nesse universo de outros saberes, sou eu o analfabeto. Não sei ler sinais da terra, das árvores e dos bichos. Não sei ler nuvens, nem o prenúncio das chuvas. Não sei falar com os mortos, perdi contacto com os antepassados que nos concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que faço à savana, vou aprendendo sensibilidades que me ajudam a sair de mim e a afastar-me das minhas certezas.*”* — Mia Couto Acho que ela traz contornos importantes para a compreensão do trabalho de um pesquisador, afinal, assumir-se "analfabeto" de outros saberes é o melhor ponto de partida para uma investigação. Quanto mais conscientes dos limites de nossa compreensão, mais abertos e dispostos estaremos a aprender com o outro. Reconhecer que não sabemos de algo é combustível para nossa curiosidade. A estranheza do desconhecido nos enche de dúvidas, perguntas e reflexões que abalam nossas verdades. No entanto, diante de uma cultura que supervaloriza o conhecimento, mas dá pouco espaço para os processos de aprendizagem, assumir que não sabemos muitas vezes nos vulnerabiliza e expõe. Atualmente, organizamos nossa identidade em torno do que estudamos. Apresentamo-nos uns aos outros a partir de nossa formação. Exibimos certificados e diplomas nas paredes, lustramos nossos currículos com cursos e especialização. Julgamos o outro por seu grau de escolaridade e somos rápidos em esconder nossa própria iliteracia sob camadas rasas de informação recheadas de certezas vãs. **Quando ser é saber, a dúvida e o erro tornam-se desvios indesejáveis que precisam ser camuflados ou refutados. O medo da ignorância nos deixa apegados a nossas opiniões, corrói nossa curiosidade e nos torna indiferentes à experiência do outro.** Num mundo em que somos remunerados para trazer respostas e soluções, onde as competências se organizam em cargos e hierarquias, o conhecimento vai se tornando autômato, algo que não surge da perplexidade, do encontro com o estranho, mas de fluxos e processos responsáveis por homogeneizar o pensamento e garantir repetição, replicação, controle e previsibilidade. Talvez seja por isso que resumimos o conhecimento à educação formal. É como se, ao sair das salas de aula, não nos restasse mais nada a aprender. E assim, limitamos o aprendizado, esquecendo que há muito mais inscrito na terra, nos corpos, nas ruas e nas experiências cotidianas que nos livros. Saber ler o mundo, como Mia nos alerta, é uma forma de alfabetização que escapa às instituições. Ao passo que intelectualizamos os saberes, nos tornamos analfabetos de experiências. Acumulamos anos de estudo, mas desaprendemos a escutar o mundo. Sabemos “sobre” muitas coisas, mas não sabemos “a partir" das coisas. Essa dissociação entre conhecimento e vivência é um dos traços mais graves do empobrecimento epistemológico atual. Como já nos alertou Paulo Freire, antes de ler a palavra, é preciso aprender a ler o mundo. A alfabetização, portanto, não é apenas técnica, é existencial. O que está em jogo é a capacidade de interpretar a própria experiência e situar-se na história. Ao contrário do que supõe a pedagogia convencional, não se contrata, acumula ou adquire conhecimento. Ele surge do diálogo, da fricção de perspectivas, da transformação mútua dos encontros. ![](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/4fd04594-d241-4fe6-8986-4c748560970f/1750870308354.jpeg) Esta ai a diferença entre dado e conhecimento. O dado pode ser acumulado, parametrizado, organizado e categorizado, mas se encerra em si. Nunca leva a nada além do que expressa. O conhecimento, por sua vez se transforma, evolui, se contradiz, convida à duvida e se impregna em nossa relação com o mundo. Não há sujeito observador apartado do mundo observado, como os dados sugerem. É preciso que haja fluxo, continuidade, um campo relacional em que o conhecimento emerge como efeito do contato, onde a realidade resiste à nossa vontade e não é manipulada por ela O pensamento é um prolongamento da experiência. O ato de pensar não nasce da certeza, mas da estranheza. Aprender é experimentar, errar, observar, ajustar, reconfigurar. A educação, nesse sentido, deve ser indissociável da vida, da prática, da materialidade dos contextos. É um equívoco chamar aprendizagem computacional de inteligência. Não há inteligência que seja artificial tal qual não existe saber abstrato, desencarnado, descolado da experiência. Mais do que tecnologias, para solucionar as multiplas crises que a realidade nos impõe precisamos reaprender a escutar, a sentir, a duvidar . A reconhecer, com humildade, que, enquanto abraçamos a expansão da capacidade computacional, estamos perdendo nossa capacidade perceptual. Não podemos assistir passivamente nossas experiências serem sistematicamente reduzidas a dados, padrões e modelagens. Estar no mundo, imergir em múltiplas realidades, se abrir a novos saberes não pode ser substituído por gráficos e dashboards. A singularidade da vivência não pode dar lugar à regularidade estatística. O gesto sensível do pesquisador não pode se tornar irrelevante frente à promessa de precisão algorítmica. Esse deslocamento que estamos vendo no mercado de pesquisa não é apenas metodológico, mas ontológico. Revela uma profunda desconfiança na experiência humana como fonte legítima de conhecimento. O conhecimento, nesse modelo, não é mais um processo, é um produto. Não nasce do encontro, mas da extração. As pessoas são tratadas como fonte de dados, e não como interlocutores que pensam, sentem, interpretam, resistem. Estamos vivendo um epistemicídio silencioso: um assassinato simbólico das formas de saber que nascem do corpo, do território, da prática cotidiana. O saber experiencial é desqualificado como subjetivo, parcial, ineficiente, quando na verdade ele é o que há de mais radical na produção de sentido. É urgente resgatar o valor do aprendizado situado, sensorial, relacional. A antropologia neste sentido, nos reconecta com a epistemológia do sensível, nos ensina que para ler o mundo é preciso habita-lo em vez de representá-lo, a escuta-lo no lugar de sintetiza-lo. Por fim, a antropologia nos lembra que só desenha um bom mapa quem se permite perder-se no território. ![](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/8aa4da55-ec4b-4749-a740-9949a829ae8e/1750872483515.jpeg) Para sairmos de nós e nos afastarmos de nossas certezas precisamos reaprender a não saber, suspender o juízo, aceitarmos ser transformados pelo encontro. Conhecimento nos exige comunhão e não controle. E essa comunhão só é possível se reconhecermos o outro como portador de um saber legítimo e inestimável, mesmo (ou principalmente) quando esse saber estrapola nossa compreensão. Nossa curiosidade não surge da fome de respostas, mas da sede por conexão. É desse empirismo radical, da experiência reflexiva, desse aprendizado vivo que surge qualquer inteligência. O mundo não é um objeto de estudo, mas um território de troca. E, para lê-lo em sua plenitude, talvez seja preciso, antes, desaprender a ler como fomos ensinados, só com palavras. ### O tempo fora do tempo URL: https://www.nervvo.com.br/o-tempo-fora-do-tempo/ Last updated: 2026-08-11T20:35:06.000Z Um dos papéis dos rituais em nossa vida é organizar o tempo, ou melhor, nos organizar dentro dele. Os rituais inscrevem gestos e processos em formas reconhecíveis, permitindo que uma experiência seja retomada, transmitida e, assim, permaneça no tempo. Por meio da repetição, os rituais tensionam a linearidade do tempo, fazem o passado retornar no presente e projetam a experiência para além do instante em que acontece. Os rituais conferem estabilidade à experiência temporal, estabelecem convenções e oferecem formas pelas quais uma cultura se torna sensível no cotidiano. Rituais, portanto, nos lembram que o tempo nem sempre passa no ritmo de sua contagem. Ele também se manifesta de maneira situada, adquirindo ritmo e espessura nos corpos, nas relações, nas paisagens e nos acontecimentos. O tempo é um território de disputa no qual diferentes ritmos de vida são organizados, impostos e negociados. A ideia de que a velocidade da vida é culturalmente produzida abre espaço para refletirmos sobre a sensação contemporânea de aceleração. Os passos apertados, a impaciência dos carros, o desconforto das filas, a aflição de ficar sem fazer nada ou simplesmente esperar revelam nossa dificuldade crescente de suportar a duração. Administrar o tempo parece ter se tornado uma das tarefas centrais da vida contemporânea. Tentamos ganhá-lo, poupá-lo e otimizá-lo, como se qualquer intervalo representasse uma perda. Empilhamos urgências em completo descompasso. Nossa relação contemporânea com o tempo conserva traços do modelo industrial que reorganizou o trabalho e o cotidiano. O sinal das fábricas e o ritmo das máquinas passaram a impor uma cadência externa à experiência do trabalho, subordinando o ritmo dos dias à linearidade da produção e achatando diferenças de intensidade, espera e maturação. O tempo mecanizado passa a ser percebido cada vez menos como duração vivida e cada vez mais como recurso passível de ser comercializado, administrado, quantificado e esgotado, tornando-se um mecanismo de disciplina social. Em *A corrosão do caráter,* Richard Sennett reflete sobre a mudança do capitalismo industrial para o que ele chama de capitalismo flexível. Segundo Sennett, essa transformação não mudou apenas a maneira como trabalhamos, mas reconfigurou a maneira como experienciamos o tempo. Nesse novo regime, o tempo do trabalho deixa de se organizar predominantemente por carreiras e trajetórias de aprendizagem cumulativa, passando a ser repartido em projetos, entregas, prazos e exigências. Estamos sempre nos adaptando para caber nos prazos, tentando antecipar o que vem, prever seus efeitos e, sobretudo, evitar a sensação de estar ficando para trás. Se o capitalismo industrial disciplinou o tempo por meio da regularidade e da repetição, o capitalismo flexível acrescentou a essa disciplina a instabilidade, fragmentando trajetórias profissionais em ciclos cada vez mais curtos. Na economia contemporânea, cada vez menos coisas parecem organizadas para durar: empregos, vínculos e até a narrativa que construímos sobre quem somos tornam-se provisórios. A flexibilidade, apresentada como autonomia, frequentemente transfere para o indivíduo o custo da instabilidade e transforma a adaptação contínua em requisito moral. Aprendemos a tratar o desapego como capacidade de adaptação, já que vínculos, competências e expectativas parecem perder validade antes que possam se consolidar. À medida que os horizontes temporais se estreitam, ficamos presos entre um futuro incerto e um passado sem memória. É justamente quando se enfraquecem as formas recorrentes capazes de ligar passado, presente e futuro que o tempo começa a perder sua familiaridade. Esse novo regime temporal fragmenta nossa atenção e torna mais difícil compreender a própria rotina como uma história coerente. Quando a duração perde continuidade, até perguntas aparentemente simples como quem sou ou o que faço tornam-se mais difíceis de responder. **É esse o tempo fora do tempo: uma sucessão ininterrupta de instantes que exigem resposta imediata, mas não chegam a compor uma direção. Quando o tempo é sempre escasso, fragmentado e incerto, qualquer pausa, silêncio ou respiro se torna um risco: de ficar de fora, de perder, de ficar para trás.** Otimizar tarefas, fazer mais com menos, pular etapas e bater metas tornam-se mais importantes do que aprender com o processo. Sem tempo para desvios de rota e sem disposição para se perder, o curso da vida vai sendo retificado. Diante de horizontes cada vez menos confiáveis, passamos a procurar proteção em dimensões menores e mais controláveis, confundindo estabilidade com imobilidade. Nesse contexto, trabalho, família, lazer, vida social e relacionamentos passam a ocupar a mesma lista de tarefas, exigindo uma disponibilidade contínua que não respeita o tempo necessário para que idéias, vínculos e decisões amadureçam. Cada experiência é rapidamente convertida em tarefa e substituída pela seguinte, como se a próxima pudesse finalmente nos saciar ou preencher. Aproveitar a vida, praticar um esporte, desconectar-se e até dispor do tempo necessário para atravessar uma doença tornam-se privilégios daqueles que possuem maior autonomia sobre o próprio tempo. O tempo, nesse sentido, também é distribuído de maneira desigual. Mesmo o lazer e o descanso tendem a ser legitimados apenas como recompensa ou como pausa funcional para um retorno mais produtivo. Contemplar a passagem do tempo sem finalidade perde legitimidade porque não entrega resultados. A captura do tempo e da forma como ele deve ser “consumido” é uma transformação cultural profunda. Quando os ritmos coletivos perdem parte de sua capacidade de orientação, recai cada vez mais sobre o indivíduo a tarefa de administrar sua agenda, sua identidade, seus vínculos e o sentido atribuído à própria existência. O capitalismo flexível parece ter individualizado, em grau extraordinário, a responsabilidade por compor uma vida coerente, significativa e produtiva. Dar sentido e ritmo à própria vida deixa de ser apenas uma condição existencial e se converte em tarefa diária, individual e solitária. Diante desse esfacelamento, disputar o tempo significa criar formas de duração que não sejam inteiramente submetidas à urgência e à produtividade. Nesse contexto, certos rituais cotidianos como puxar papo com estranhos, andar pelas ruas da cidade, participar de festas e eventos populares e se engajar em atividades culturais e artísticas, livres de retorno financeiro ou obrigação, podem funcionar como formas silenciosas de resistência. Instauram dentro do tempo cronológico uma duração reconhecível e abrem espaços nos quais o tempo volta a ser habitável. > Rituais são para o tempo o que os objetos são para a casa. Em uma cultura orientada pelo curto prazo, os rituais oferecem pontos de reconhecimento e continuidade. Independem de grandes acontecimentos: por meio de sequências relativamente estáveis de gestos, objetos e relações, conferem valor simbólico a ações ordinárias e dificultam que o presente se dissolva inteiramente nos vãos da atenção. Os rituais não interrompem o tempo do relógio nem nos devolvem a uma temporalidade natural perdida, mas criam, no interior de um tempo cada vez mais fraturado, formas pelas quais a duração pode voltar a ser sentida, compartilhada e reconhecida. ### O esvaziamento poético da pesquisa URL: https://www.nervvo.com.br/o-esvaziamento-poetico-da-pesquisa/ Last updated: 2026-08-05T16:59:51.000Z Arte e antropologia sempre caminharam em sintonia. O gesto do pesquisador se confunde com o do artista ao se propor a questionar e expressar seu tempo, a apreender o mundo a partir de sua nua presença, lançando-se ao encontro do outro em busca de forma, sentido e inspiração. O cinema, a fotografia, a literatura, as artes visuais, nesse contexto, sempre me serviram de guia para mapear o comportamento humano, pois permitem refletir o mundo livre de reduções, linearidade ou simplificações. Por meio da arte pude entender que os melhores aprendizados num processo de pesquisa não se revelam nos fatos, mas na contradição, na tensão entre o inteligível e o que é de domínio do sensível. Flertar com a arte me abriu caminhos para uma arquitetura de pensamento mais sinestésica e metafórica, uma forma de navegar por entre camadas e contrastes da expressão humana sem me sentir à deriva ou me agarrar com muito afinco às palavras. A arte me trouxe mais nuances e contornos para olhar para o ordinário e corriqueiro da vida cotidiana desviante das obviedades e salvo da monotonia do que se julga familiar. A arte me ensinou também que há sempre um silêncio que sustenta o discurso e que é preciso reservar um bom capítulo para as incongruências e incompreensões. Na ânsia por controlar, mensurar, resolver e explicar, perdemos a magia da contemplação. ### **Buscar encantamento e poesia nas banalidades e contingências do dia a dia me permitiu valorizar e contemplar o que me escapa; entender o não-dito; tocar a ausência e aceitar com generosidade o que se coloca diante de mim, satisfeito com o que me sobra e não aflito com o que me falta.** ![](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/e5cb0e3e-1f02-40af-8f18-dfa9c457cf7f/DSCF8188.jpg) Aos poucos, fui entendendo que uma boa pesquisa não se restringe a explicar o mundo, mas o encarna em sua inteireza porosa. O crochê no pano de prato sobre o fogão, a textura da parede disfarçando a umidade, a voz que se abaixa em confidência, o pó sobre os objetos a denunciar o tempo... Com o tempo, a paisagem passou a guiar minha investigação. Por meio da fotografia, pude reaproximar meu processo de pesquisa da experiência, do sutil das contingências, da aspereza aflitiva de se deixar conduzir ao invés de conduzir. **Aos poucos, as metodologias se tornaram contextos; as perguntas viraram pedidos; e as ferramentas cederam espaço para os sentidos.** > *“*É preciso educar nossos sentidos para ver o ordinário como extraordinário, o familiar como estranho, o mundano como sagrado, o finito como infinito.*”* — Novalis Nesse lugar, a pesquisa exige menos planejamento e mais fruição e, talvez, seja essa a maior dificuldade do mercado. Abrir mão do controle, confiar na experiência e abraçar o inesperado são movimentos fundamentais para fazer com que os projetos de pesquisa deixem de orbitar em torno das inseguranças do mercado e entreguem de fato às pessoas o protagonismo na contação da própria história. Os burilados roteiros que caricaturalmente os pesquisadores carregam por ai sempre dirão mais sobre quem pergunta do que sobre quem responde. Pressionada pelas urgências, tolhida por orçamentos cada vez mais parcos e envelopada em “entregáveis” objetivos, a pesquisa cultural, no entanto, tem se afastado cada vez mais de sua vocação artística e anímica. Fala-se tanto do "o espirito do tempo," mas a sensação é que o mercado quer mesmo é exorciza-lo, extirpa-lo de qualquer subjetividade, sutileza e livre manifestação para, assim, conseguir mensurá-lo e consumi-lo. Perdeu-se o tempo para a poesia, apagou-se o espaço das metáforas. As histórias, anedotas e digressões naturais das vivências vão sendo silenciadas e, com elas, o encontro com o fortuito, criativo, inesperado e inestimável que sempre deram tonalidade a pesquisa de comportamento. O mercado quer cada vez mais respostas simples, infográficos concisos, listas de insights. Basta-se com o reflexo da realidade e se mostra muitas vezes enfastiado com a reflexão que ela suscita. Capituladas, as pesquisas passaram a operar como uma espécie de suporte técnico nas empresas, necessárias apenas para guiar, apoiar e corroborar planos já traçados e não mais servem de convite ao pensamento critico, filosófico e, por isso, estratégico sobre a realidade. ### O comportamento virou métrica; o desejo virou tendência; a cultura virou dado; e o mercado passou a se guiar pelas próprias miragens. Esqueceu-se que as pesquisas culturais, assim como a arte, não são necessária por conta de seu valor utilitário, mas porque nos sensibiliza. Para estar no mundo é ncessessário se deixar atravessar e transbordar por ele. Na ausência de uma dimensão poética e hipnotizada por tecnologias que simulam a realidade, a pesquisa passou a produzir diagnósticos corretos, porém estéreis; resultados coerentes, porém desabitados. Longe da arte, deixou-se de escutar os silêncios. Reaproximar a arte das pesquisas culturais não é um retorno ao passado, mas um gesto de sensibilização necessário para que possamos traçar estratégias e caminhos mais duradouros e verdadeiros, capazes de encontrar eco nos afetos. E, antes que me acusem de cabotinismo, é importante afirmar que resgatar o caráter poético da pesquisa é, acima de tudo, uma forma de oferecer às marcas, ou melhor, às pessoas que trabalham para elas, algum propósito, alguma essência, algo que comove, arrebata, entusiasma e rompe com a apatia e monotonia disfarçada de eficiência que só empobrece a discussão. É incrível, ao final da apresentação de um Report, ver a gerente de uma marca de esmaltes vir falar dos momentos que passava com sua mãe fazendo as unhas na infância; ou ouvir a diretora de uma multinacional reconhecer que o trauma que leva as mães a entrarem na categoria de fórmulas infantis precisa ser acolhido e não silenciado, ou presenciar um CEO de uma marca de moda masculina refletindo que seu propósito não é vender roupas ou encurtar a jornada, mas ajudar os homens a se sentirem confortáveis e confiantes na construção do próprio estilo. ![](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/4c885187-73a2-41fd-ab94-531d80270eea/DSCF3960.jpg) > *“*A distancia mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas.*”* — Lygia Fagundes Telles Em nenhum desses casos o que mais reverberou dos resultados foram os insights de marca ou produto. Por uns instantes, o negócio ficou de lado e abriu espaço um olhar empático, sensível e generoso. Ao sensibilizar as pessoas, um projeto de pesquisa de comportamento entrega muito mais do que respostas acionáveis. Ele resgata propósitos, afetos e histórias que não se diluem facilmente no frenesi pela busca por resultados que turvam nossa humanidade e sintetizam nossa experiência. ### O que perdemos quando a alma dos objetos desaparece? URL: https://www.nervvo.com.br/o-que-perdemos-quando-a-alma-dos-objetos-desaparece/ Last updated: 2026-08-07T14:44:07.000Z Os objetos não são apenas coisas. São extensões do corpo, depósitos de tempo, testemunhas silenciosas da experiência humana. Desde os artefatos pré-históricos até um celular velho esquecido na gaveta, as coisas carregam histórias, sentimentos e significados. Muitas vezes, o que chamamos de cultura se sustenta menos em ideias abstratas do que na maneira como os sujeitos se relacionam com aquilo que produzem, possuem, tocam, trocam, usam e guardam. O valor de um objeto nunca é puramente funcional. Ele reside em sua capacidade de acumular sentido, de se impregnar de narrativas, de atuar como mediador entre o visível e o invisível, entre o passado vivido, o presente que se deseja compreender e o futuro que se esboça na intenção. Ao refletir sobre o que acumulamos, empilhamos, encaixotamos e organizamos na paisagem doméstica, é simples inferir que a memória não é apenas um fenômeno interno, psíquico ou mental — ela é, também, material. Os objetos nos organizam, nos estabilizam, nos descrevem. Um vestido herdado, uma carta antiga, um sapato gasto, um brinquedo empoeirado: cada um deles ativa em nós um tipo de lembrança que é sensorial, afetiva, quase onírica em sua capacidade de nos transportar no tempo. ![](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/c71e0a0f-4005-4ecc-bdb6-87b0e5661b0e/untitled-137.jpg) Os objetos que nos rodeiam não apenas expressam nossa identidade, mas a moldam; são coautores das narrativas que construímos sobre nós, uma espécie de agência psíquica que nos interpela e participa da nossa vida. Ou seja, nossos pertences, ao serem investidos de memórias, se elevam do universo do inanimado para se colocarem como operadores de sentido, mediadores de presença, fragmentos tangíveis de um tempo que já não é, mas que insiste em permanecer. Objetos são, portanto, resistência à fluidez absoluta do fluxo contínuo de tantos pensamentos e sentimentos que nos transpassam. Contudo, mesmo diante do caráter anímico ancorado em sua silenciosa presença, na cultura moderna ocidental capitalista os objetos acabaram rebaixados a status de mercadoria a ser consumida e descartada sem que haja tempo para vínculo ou conexão. Esvaziado de valor afetivo, cultural, simbólico e mnemônico, e convertido em unidade rasa de valor monetário — intercambiável, mensurável, obsolescente — aquilo que compramos não mais nos preenche ou sacia. Embrulhado em fetiches e desejos, o objeto-mercadoria se desmancha na promessa de juventude, pertencimento, distinção, segurança — promessas que evaporam logo após passarem pelo caixa. O que sobra é o vazio: combustível para um ciclo de substituição que se repete não por necessidade, mas por carência cultivada. A novidade, a inovação, a disrupção sobre a qual as marcas tanto se debruçam e escaramuçam em busca de assunto, relevância e anunciação, ao invés de provocar transformações simbólicas, produz apenas esquecimento. Não se guarda o que se pode facilmente repor. O consumo sempre operou por meio de símbolos. O que mudou foi a velocidade com que esses símbolos são produzidos, consumidos e descartados, tornando cada vez mais difícil que um objeto permaneça tempo suficiente para acumular história. A substituição compulsiva de objetos impede a sedimentação da experiência — o que resulta não apenas na perda da memória, mas na dificuldade de constituir um “eu” que se reconheça no tempo. ![](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/e67ef38d-79a2-4fd8-b9ee-1da9476dca2b/untitled-65-2.jpg) Neste dinâmica onde só os números de venda importam, o que está em jogo não é apenas a forma como consumimos, mas nossa própria capacidade de construir uma narrativa autêntica sobre quem somos. Sem objetos que persistem, sem vínculos duradouros, sem mediações simbólicas, a experiência se torna abstrata, desencarnada. Algumas marcas já compreenderam que sua relevância vai além da simples performance de mercado. Grant McCracken, ao tratar das marcas como produtores culturais, argumenta que elas funcionam como “engrenagens simbólicas” capazes de moldar identidades, práticas e até imaginários coletivos. Ou seja, marcas culturalmente poderosas são aquelas que não apenas capturam tendências, mas criam *mitologias*, narrativas que respondem a tensões sociais profundas. Quando ignoram esse papel e se limitam a produzir efemeridade, as marcas não apenas se esvaziam de propósito, mas contribuem ativamente para o colapso das estruturas de memória e vínculo. E se, para além de valor de mercado e volume de vendas, as marcas também se dispusessem a refletir sobre o valor afetivo, cultural, simbólico, mnemônico e identitário daquilo que trazem ao mundo? Será que encontrariam mais propósito e conexão com seus próprios produtos? Será que encontrariam objetivos estratégicos um pouco mais profundos do que ampliar sua fatia do bolso das pessoas? Será que conseguiriam expandir sua visão de mundo para além da própria categoria? Será que teriam mais disposição para resolver questões reais para além de aplacar necessidades e dores que elas mesmas criam? Não é simples navegar por um mundo em colapso e assumir responsabilidades que vão além do oportunismo retórico de querer vender soluções. Mas parte significativa das saídas possíveis começa com uma reconexão ética e sensível com nosso mundo material — um mundo onde o que se toca também se honra. Onde o vínculo importa mais que a rotatividade. Onde guardar, cuidar e manter não é nostalgia, mas gesto político. Resistir ao descartável é hoje um modo radical de continuar lembrando, de continuar existindo. ![](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/8a5aa25a-429f-403f-a7cc-797d0fbadbbc/untitled-67.jpg) ### Manifesto pelo pensamento analógico URL: https://www.nervvo.com.br/manifesto-pelo-pensamento-analogico/ Last updated: 2026-08-07T14:52:47.000Z Será que a grande entrega de uma pesquisa cultural está mesmo nos achados, ideias e respostas que reúne em um relatório? É claro que tudo isso tem sua relevância, mas são detalhes diante da contribuição que de fato este tipo de estudo apresenta: **uma versão analógica do mundo.** > *“*Não é possível compreender o mundo sem estar nele, caminhando com ele, sentindo sua textura.*”* — Tim Ingold As pesquisas culturais oferecem ao mercado um contraponto cognitivo urgente. Em um ambiente cada vez mais guiado por raciocínios lógicos, fórmulas e métricas, esse tipo de abordagem é fundamental para ancorar as empresas em uma realidade menos autorreferente e *confinada às suas próprias categorias e métricas*. ![O consumidor não escolhe, ele compõe. Não decide, mas intui. Ele cria colagens simbólicas para habitar o mundo.](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/7b759ee5-e8a9-40c0-9edf-e07315197617/DSCF0616.jpg) O consumidor não escolhe, ele compõe. Não decide, mas intui. Ele cria colagens simbólicas para habitar o mundo. Ao priorizar perspectivas utilitárias sobre a realidade, restrita a dores, desejos e necessidades de consumo de uma determinada categoria, o mercado acaba se viciando em modelos mentais lineares, marcado por regras, fórmulas, métricas, axiomas e deduções. A atual obsessão do mercado por dados reflete um pouco este viés cientificista. Se por um lado, dados conseguem trazer leituras objetivas e de fácil assimilação, também criam distorções e alucinações ao circunscreverem a realidade apenas àquilo que conseguem parametrizar. *Como observa David Howes, a cultura não é um dado a ser coletado, mas um campo sensorial a ser vivido.* Estudos de cultura, neste cenário, promovem um modelo de pensamento analógico, associativo, reflexivo e desestruturado no qual a realidade é apreendida não como dados, fatos e ocorrências, mas a partir do exercício fortuito de vivenciar um mundo repleto de sentidos, sentimentos, emoções, afetos e memórias sobre as quais se ancoram as experiências cotidianas. O pensamento analógico não é um adorno poético da pesquisa: é seu método fundador quando lidamos com subjetividade, cultura e sentidos. Ele é a linguagem da complexidade, da ambiguidade e da experiência encarnada, exatamente os terrenos onde se constrói valor de marca, preferência e lealdade, visto que, no consumo, as decisões raramente seguem a lógica causal linear; elas operam por ecos, ressonâncias e associações difusas. Enquanto o pensamento lógico opera pela otimização de soluções conhecidas, o pensamento analógico se move pelo desvio, pela emergência e pelo improviso. Inovar, nesse sentido, não é apenas resolver um problema, mas descobrir novos modos de estar no mundo. É menos uma meta e mais um processo, uma travessia, um deslocamento simbólico que exige abertura ao inesperado e sensibilidade para o indizível. O conhecimento produzido por pesquisas culturais se torna, assim, um **catalisador de rupturas criativas.** São os contextos, histórias e memórias que marcam a interação das pessoas com as marcas, ou seja, quanto maior o campo semântico, afetivo e mnemônico trabalhado por ela, mais profunda e verdadeira será a conexão que estabelece. ![As marcas precisam ser compreendidas não apenas como signos visuais ou conceitos estratégicos, mas como experiências sinestésicas complexas para os quais o pensamento lógico não consegue dar vasão.](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/6bb964ef-36d0-4a45-88c6-0058599a268b/DSCF4489.jpg) As marcas precisam ser compreendidas não apenas como signos visuais ou conceitos estratégicos, mas como experiências sinestésicas complexas para os quais o pensamento lógico não consegue dar vasão. O branding, nesse cenário, deixa de ser uma técnica de diferenciação e passa a ser uma prática simbólica e sensível. A marca não é apenas aquilo que comunica, mas o que evoca, o que desperta, o que toca e expressa por meio da cultura. Uma marca forte é aquela que se inscreve na memória afetiva, que reverbera no corpo e nos sentidos, que se mistura com a paisagem emocional do consumidor. A pesquisa cultural revela essas camadas ocultas de significação, permitindo que o branding se torne mais poroso, relacional e potente. O pensamento analógico permite às marcas suspenderem por uns instantes os limites que se auto-infligem ao organizarem suas ações em torno de segmentos, tiers de preço, KPIs e categorias, e olharem para si sob as lentes do repertório semântico que as pessoas criam em torno delas. Como diria Ingold, **é preciso pensar com os pés no chão e os sentidos despertos; não como quem mapeia o mundo de fora, mas como quem o percorre de dentro, construindo sentido a cada passo.** É nesse caminhar atento que a pesquisa cultural se inscreve: não como instrumento de leitura do mercado, mas como um modo de reencantá-lo. Revela menos o que os consumidores fazem, e mais aquilo que os move. Aponta menos para tendências, e mais para territórios sensíveis de significação. Onde a lógica mede, a cultura envolve. Onde os dados explicam, os sentidos tocam. A verdadeira entrega, portanto, não está no que a pesquisa mostra, mas no que ela ressignifica. ### Episódio 00: A casa que nos habita URL: https://www.nervvo.com.br/a-casa-que-nos-habita/ Last updated: 2026-09-21T19:11:18.000Z Mais do que um imóvel, um lugar onde reunimos e dispomos uma série de objetos, a casa pode ser melhor entendida como um espelho. Ela nos apresenta diariamente e insistentemente a nós mesmos. Diante dessa imagem que a casa projeta, vamos percebendo a passagem do tempo e o ritmo da vida, dando contornos às nossas maneiras e manias, nos tornando curadores, artistas e espectadores de um museu autobiográfico que nos engolfa. A casa materializa, aterriza e dá o contorno necessário para o infinito que habita em nós. Sem a casa teríamos dificuldade para revisitarmos nossa história, nos reconhecermos, e, principalmente, nos reinventarmos. Sem a casa, viveríamos afogados no efêmero dos pensamentos, percepções e emoções. Ao trazer estabilidade para a vida, a casa nos oferece a possibilidade única de reunir passado, presente e futuro ao alcance das mãos. Talvez esteja aí sua relação inexorável com a identidade. A casa me orienta quando os desejos e demandas me embaralham os pés. ![](https://images.squarespace-cdn.com/content/v1/54da9961e4b0c90b17ab6742/1725477186519-8F3IQWUDT49ZPXFSBJ8M/DSCF0306.jpg) Diante desse caráter simbólico é natural que ela ocupe papel central em nosso cotidiano e abarque tudo o que nos é necessário para uma vida plena. No entanto, não é isso que vivenciamos atualmente em grandes centros urbanos. Desde a revolução industrial culturalmente estamos sendo alijados da esfera doméstica. Compramos a ideia de que a vida só acontece em cores pungentes do lado de fora. É lá onde está nosso sustento, nossa diversão e socialização. Nas cidades a casa se tornou mercadoria, sonho de muitos, privilégio de poucos que em geral terceirizam seus cuidados. Nas cidades, a casa congelou-se em imagens de Pinterest, livre de afetos, como num visite decorado. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF3917.jpg) Enquanto isso, outras redes sociais e crachás parecem ocupar o papel de espelho, nos oferecendo audiência e carreira, homogeneizando nossas escolhas e afastando-nos das possibilidades de habitarmos outros mundos. É nesse cativeiro da vida moderna que o colapso civilizatório a que estamos submetidos encontra morada. A pandemia e a crise climática nada mais são do que expressões de uma casa em ruínas. Ao passo que uma nos confina, outra nos desaloja. Não cabemos mais dentro do mundo que criamos. É em meio a este sentimento profundo de desterro, no entanto, que emerge a possibilidade de retornar. E nunca antes foi tão urgente entender a importância de retornar. Como bem coloca o filósofo e ambientalista indígena Ailton Krenak, “o futuro é ancestral,” e para encontrarmos felicidade e bem-estar precisamos resgatar a essência do morar, nos conectarmos com esse lugar que habitamos e que habita em nós, seja ele corpo, casa ou planeta. É fundamental abrirmos as portas para novas possibilidades, demolirmos os muros que nos isola e repensarmos, sentados à mesma mesa, sobre o que nos falta, nos sobra e preenche verdadeiramente. Ao longo do processo, fica o convite à reflexão: será que a casa em que vivemos nos abriga? ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF4028.jpg) ### Bagunça como expressão da vida URL: https://www.nervvo.com.br/bagunca-como-expressao-da-vida/ Last updated: 2026-09-21T19:14:49.000Z Entrar na casa das pessoas faz parte do meu ofício como pesquisador. Sempre que alguém abre a porta é todo um universo que se abre. Uma profusão de cheiros, texturas, formas e cores me arrebata já na primeira fresta. E é ali, logo após os cumprimentos habituais entre duas pessoas que acabaram de se conhecer que costuma vir uma das frases que, na minha visão, melhor definem a cultura brasileira: **Não repare na bagunça!** Embora seja um simples hábito, uma espécie de quebra-gelo que rompe o silêncio desconfortável entre os cumprimentos iniciais e minha condução até a sala, essa expressão carrega uma série de camadas culturais que organizam nossas relações. Ao pedir para não reparar na bagunça, o anfitrião demonstra uma certa modéstia, típica de culturas latinas, subjugando o estado de ordem de sua casa para demonstrar humildade, na expectativa de que o convidado o tranquilize, o elogie ou se coloque na mesma posição. Independentemente dos motivos que levam as pessoas a pedirem para que não me atente a suas bagunças, confesso que sou completamente fascinado por elas. Para mim, a bagunça é o que traz vida e movimento para uma casa. É por meio dela que consigo reconstituir cenas, entender comportamentos e ler uma série de hábitos e rituais que tornam a vida possível. --- ### A bagunça é um grito de resistência contra um senso de ordem estático. É nela que o real se imprime à revelia de códigos, normas e expectativas que tantas vezes servem para nos organizar, padronizar, categorizar e encaixar feito objetos numa estante, condenados à inanimação. --- Uma casa sem espaço para a bagunça é uma casa onde nada se cria ou se transforma. É uma casa parada no tempo, onde os livros não se abrem, as louças não servem, o sofá não aninha e os brinquedos não convidam a imaginar outros mundos. A bagunça é uma espécie de recurso necessário para que a vida aconteça. Ela se produz no uso, forma-se nos objetos que permanecem, nos deslocamentos incompletos, no que se acumula entre uma ação e outra. Não é apenas ausência de ordem, mas parte de uma organização prática, situada, muitas vezes inteligível para quem não participa dela. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/07/untitled-7.jpg) Diante disso, se a bagunça faz parte da vida, é natural e, por vezes, importante para uma rotina equilibrada, por que somos convidados, ainda na porta, a desconsiderá-la? O que há na bagunça cotidiana que nos envergonha? Por que deveríamos escondê-la? Que desvio moral ela infligiria a nós? Parte da resposta está no fato de que a bagunça nunca é julgada apenas pela sua presença. Ela é julgada pelo corpo, pela casa e pela posição social de quem a produz. **Manter uma casa com alto padrão de organização custa caro e toma tempo. É preciso ter armários, closets, guarda-roupas, sapateiras, caixas organizadoras, prateleiras, gaveteiros, estantes e, no limite, até depósitos (self storages) - onde os excessos do hiperconsumo podem ser armazenados alheios à vida cotidiana.** Nesse contexto, a bagunça pode ser vista como um signo de distinção social. Enquanto a elite paga para que a bagunça seja invisível e consome uma estética minimalista como sinal de status; as camadas populares precisam se dedicar à organização e limpeza da própria casa no pouco tempo livre que sobra, vivendo em espaços menores, compartilhado por várias pessoas, com menos móveis de armazenamento (armários, guarda-roupas, estantes) e, em alguns casos, convivendo com um acúmulo maior de coisas, visto que, nestes lares, a bagunça também funciona como uma espécie de estoque de segurança de objetos que ficam empilhados em algum canto como uma provisão para um futuro incerto, diante de uma história marcada pela escassez, onde o vazio não é estético, mas falta. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/09/DSCF3937.jpg) A bagunça também tem inflexões de gênero e incide de forma diferente entre homens e mulheres. Enquanto a bagunça masculina é tolerável e justificada, como se houvessem coisas mais importantes com que se preocupar; a bagunça feminina pode levantar questionamentos em relação a caráter ou competência. Essa diferenciação faz com que mulheres se sintam mais pressionadas, sejam menos tolerantes e fiquem mais incomodadas em ambientes desorganizados. Segundo [pesquisa](https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/37621-em-2022-mulheres-dedicaram-9-6-horas-por-semana-a-mais-do-que-os-homens-aos-afazeres-domesticos-ou-ao-cuidado-de-pessoas?ref=nervvo.com.br) realizada pelo IBGE em 2022, as mulheres brasileiras dedicam, em média, 9,6 horas a mais por semana do que os homens a tarefas domésticas ou ao cuidado de pessoas. Essa sobrecarga faz com que a bagunça tenha um efeito ansiogênico sobre elas e ajuda a explicar porque este é um tema que permeia tantas brigas e desentendimentos entre casais. Nunca foi só sobre a toalha molhada em cima da cama. Se a bagunça é marcador de classe e gênero, naturalmente também é de raça, principalmente no Brasil, servindo de lente para discriminação e estigmatização. Embora a pressão por organização e limpeza recaia sobre todas as mulheres, uma mulher branca de classe média corre menos risco de ser rotulada como "negligente". Para uma mulher preta e periférica, manter a casa impecável não é só um hábito ou uma preferência, é uma forma de provar dignidade e rebater estereótipos racistas de "sujeira" ou "atraso". Quando racializamos a discussão, rompemos com a esfera doméstica, uma vez que o conceito de "bagunça" ja foi muitas vezes usado pelo Estado para justificar intervenções urbanas. Um exemplo disso foi o movimento higienista do início do século XX que associava a desordem física dos espaços habitados por populações negras, como cortiços e favelas, à doença e ao vício. Bagunça, neste contexto, serviu de pretexto para despejos, demolições e expulsão de comunidades inteiras, como no caso do "Bota-Abaixo" no Rio de Janeiro, reforma urbana radical que empurrou a população negra e pobre para os morros e subúrbios, sob o pretexto de sanitizar o centro da cidade. **Ao olharmos de perto sobre quem recai o peso de uma casa organizada é possível inferir que o nível de ordem imposto ao universo doméstico não é exatamente um traço cultural, mas resquício de um modelo de dominação patriarcal e escravocrata que ainda ecoa nos dias atuais. Basta olhar para nossa miscigenação, nosso sincretismo, nosso carnaval, nossas gambiarras, nosso jeito próprio de estar no mundo, nossa relação permissiva com o improviso, a mistura e a informalidade.** A bagunça no Brasil parece menos marcada pela condenação moral do que em culturas onde a ordem ocupa um lugar mais central. Abrir mão da bagunça, enchê-la de vergonha e culpa é também uma forma de castrar nossa criatividade, nossa expressividade e tentar nos encaixar em uma taxonomia cultural que não nos cabe. A bagunça talvez seja uma das últimas formas pelas quais o cotidiano insiste em escapar da domesticação completa. Ela lembra que viver produz marcas. Que existir desloca objetos. Que toda casa habitada é também uma casa em permanente transformação. Talvez o problema nunca tenha sido a bagunça. Talvez a bagunça seja apenas a forma que a vida encontra para permanecer visível ### Dimensões da vida comum URL: https://www.nervvo.com.br/dimensoes-da-vida-comum/ Last updated: 2026-08-14T15:33:36.000Z --- Existe um certo paradoxo na vida comum: ao passo que ela é o que de fato constitui nossa experiência e percepção da realidade, passa ao largo, muitas vezes, da nossa consciência, da nossa memória, das narrativas que contamos sobre nós. Ao organizarmos nossos pensamentos e priorizarmos aquilo que julgamos ter maior importância, automatizamos uma série de hábitos e rituais que marcam o ritmo de nossos dias. Passamos a não mais prestar atenção à forma como lavamos a louça, escovamos os dentes, preparamos um café, ou como os objetos estão dispostos na estante. Na tentativa de dar forma à maneira como o regime de atenção estrutura a vida comum, sugiro olharmos para três instâncias que se alternam e se complementam no curso dos dias. **A primeira é a instância ordinária: uma dimensão corriqueira, repetitiva, preenchida por rotinas e que, em geral, traz uma sensação de continuidade e previsibilidade.** Mais do que sentimentos e sensações, a camada ordinária se expressa como uma organização pragmática da vida, uma lista de tarefas com tudo aquilo que nos dispomos a fazer ao longo de um dia “normal”. Acordar, escovar os dentes, tomar café, ir para o trabalho, almoçar, trabalhar mais, voltar para casa, preparar o jantar, arrumar a casa, tomar banho, dormir, acordar… Um arranjo planejado e estruturado como num *script* claro, direto, objetivo, replicável, feito um método indispensável para tornar a vida viável ao longo do tempo. O ordinário, por conta disso, pode também ser visto como uma espécie de corrente, um fio condutor, onde diferentes dimensões da vida se conectam, se intercalam e se sobrepõem, garantindo alguma unidade. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/06/image.png) **A segunda é a instância extraordinária: a dimensão que rompe com o fluxo habitual, quebra a monotonia e se expressa como um marco, uma experiência, algo a ser lembrado, contado, noticiado e, em alguns casos, materializado na forma de objetos incumbidos de guardar a memória daquele acontecimento.** Diferente do ordinário, o extraordinário costuma ser carregado de intensidade afetiva e, talvez por isso, adquira status narrativo e social, sendo constantemente compartilhado, revisitado, reencenado nas rodas de conversa. O início ou término de um relacionamento, a chegada de um filho, a partida de alguém, viagens, shows, passeios, acidentes, formaturas, aquisição de patrimônio, novos hobbies… Eventos que, em maior ou menor grau, representam uma ruptura no fluxo habitual e, por conta disso, ganham espaço em nossa atenção e reverberam ao longo do tempo, podendo representar marcos no enredo que tecemos sobre nós. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/06/image-3.png) Por fim, e não muito comentada, vem a instância do *infraordinário*, melhor definida por Georges Perec como “aquilo que acontece quando nada acontece”. Particularmente gosto dessa definição porque nos lembra que, na vida comum, não existem hiatos, espaços vazios de experiência. Mesmo que, em muitos momentos, tenhamos a sensação de que nada está acontecendo — como se, por um lapso qualquer, a vida tivesse se tornado ilegível, insensível ou esvaziada — sempre há algo operando alheio à nossa consideração. Mas, se há sempre algo acontecendo, de onde surge esse nada, esse vazio, esse apagamento temporal? Uma opinião apressada poderia dizer que ele vem da irrelevância, da inutilidade ou da completa nulidade do que está acontecendo e que, portanto, pode ser descartado e varrido da memória. Contudo, ao jogarmos luz sobre o *infraordinário*, percebemos que essa sensação não nasce exatamente de uma escala de valor experiencial, mas do excesso de familiaridade com a própria experiência. **O *infraordinário* é uma dimensão tão íntima, tão próxima, tão incorporada, que passa a fazer parte de nós sem que sequer nos demos conta de sua presença, pelo menos até que surjam furos, quebras e atravessamentos capazes de romper com a normalidade e trazer à superfície aquilo que, de tão reconhecível, nos parece invisível.** Sabe aquele incômodo que sentimos quando a carteira ou o celular não estão no bolso “certo” da calça? Ou quando algum desavisado decide sentar-se em nosso lugar à mesa, na praça, na sala de aula, no espaço de trabalho, na biblioteca ou em tantos outros lugares que se fazem nossos não por designação, mas por repetição, numa espécie de usucapião tácito que vamos criando pelos espaços que frequentamos e que, quando desrespeitado, nos causa uma sensação de despejo e irritação ao ter que procurar um outro lugar, um que claramente não é o nosso? O *infraordinário* atua justamente em situações assim, em que o corpo aprende antes de a consciência se dar conta. Ritmos, pesos, distâncias, perspectivas, temperaturas, texturas, sons, disposições espaciais… uma ecologia sensível da familiaridade responsável por nos trazer um senso de normalidade e conforto. Repetimos um gesto simplesmente porque ele nos parece o mais apropriado, como se já soubéssemos o resultado do que está por vir com base em um repertório que não se organiza em palavras ou argumentos, mas ainda assim nos guia, trazendo estabilidade psíquica e continuidade existencial. Olhar, portanto, para o *infraordinário* é talvez uma forma de resgatar a poética do banal, deixar emergir o sentido profundo de tantos detalhes aparentemente insignificantes que se aglomeram em nosso entorno e dão forma, corpo e fundo à nossa maneira própria de navegar no mundo. Ao escavar o cotidiano em busca do *infraordinário*, nos dispomos a reencantar-nos com o toque da roupa favorita, com o tilintar das louças em um almoço de família, com o cheiro da casa dos pais, com a disposição das coisas em nossa mesa de trabalho, com toda uma coreografia de gestos, sensações e objetos capazes de tornar novamente evidente essa teia invisível que afirma nosso pertencimento a determinados contextos, afinando nossos sentimentos e entregando uma certa densidade material ao mundo, nos resgatando de meros automatismos da repetição e devolvendo profundidade ao trivial. ![](https://storage.ghost.io/c/2a/0c/2a0c2d02-03b6-4f78-9b91-a696a1a00a80/content/images/2026/06/image-4.png) Contudo, não é só de poesia que vive o *infraordinário* e talvez seja justamente essa outra camada que torne essa instância ainda mais intrigante. Ao se posicionar abaixo do radar da consciência e só se tornar perceptível em momentos de ruptura, o *infraordinário* se mostra como a dimensão mais complexa de manejar, sendo responsável por uma certa rigidez em nossa forma de ser, visto que muitas vezes não nos damos conta da sua influência em nossas escolhas, preferências e inferências. **O *infraordinário* nos vicia naquilo que é familiar, nos ancora em contextos já conhecidos e opera de acordo com padrões de recorrência. Ou seja, se por um lado é fundamental para trazer estabilidade e consistência para a vida comum, poupando a energia de ter que escolher e avaliar a todo instante nosso próprio comportamento, por outro também nos estagna e nos solidifica nesse lugar, tornando processos de mudança muito mais difíceis e custosos energeticamente.** Isso fica evidente quando, por exemplo, decidimos inserir uma nova atividade em nossa rotina. Há um tanto de persistência, disposição e insistência dedicadas até que ela ganhe espaço e seja absorvida pela camada infraordinária. É por isso que tantas vontades e iniciativas se perdem no meio do caminho. O inverso nesse caso também é verdadeiro. Há uma série de hábitos e comportamentos que absorvemos ao longo da vida e que até já fizeram sentido e foram importantes em determinados momentos, mas que agora não nos servem mais e, às vezes, até nos prejudicam, mas ainda assim temos uma dificuldade enorme de romper com esses comportamentos adquiridos. Numa analogia final que sobrepõe todas as instâncias e ilustra como elas operam e dão forma à vida comum, podemos dizer que o extraordinário funciona como uma espécie de voltagem em um sistema elétrico ao nos empurrar para novas possibilidades, gerar tensão e reverberar ao longo do tempo. Já o ordinário pode ser visto como uma forma de amperagem, algo que regula o fluxo, a corrente de estímulos que cabe na nossa vida de forma a trazer constância e linearidade. E o *infraordinário* é a potência, aquilo que calibra quanto de energia precisamos consumir para nos manter operando, deixando claro que existem atividades que demandam mais ou menos energia, orquestrando silenciosamente os pulsos e frequências que marcam o ritmo da vida. Observar a vida comum, trazer atenção para tudo aquilo que preenche nossos dias, das coisas mais simples e corriqueiras às mais importantes e complexas, é um exercício autorreflexivo importante, que nos permite, de tempos em tempos, reavaliar o que nos toca, o que nos move, nos organiza e nos faz reconhecer a nós mesmos. É natural que, no curso dos acontecimentos, nos transformemos, enrijecendo e nos desmanchando, deixando-nos craquelar por aquilo que nos corta e molda nossas maneiras e manias. E só conseguimos nos recompor quando sustentamos esses momentos de desconforto, colocando em suspensão tudo aquilo que construímos em busca de estabilidade, mas que muitas vezes nos engessa em uma versão que já não evolui no mesmo passo que nós. ### Repousar nossa atenção sobre as diferentes camadas da vida cotidiana é fundamental para romper com os achatamentos e automatismos que fazem com que, culturalmente, passemos a associar rotina a algo maçante e entediante, quando, na verdade, é ela que sustenta nossa experiência de mundo.