Nossa relação com o quarto se inicia antes mesmo de nascermos. Abrir espaço na casa para a chegada de uma criança começa, para muitas famílias, com a organização do quarto, seja ele só para o bebê, compartilhado com os irmãos ou resumido a um berço do lado da cama dos pais. Independentemente da disposição e dos recursos desse lar que se acomoda em torno do rebento, o quarto, antes mesmo de chegarmos ao mundo, já nos apresenta uma série de projeções, limitações e expectativas que inscrevem sobre nós um ponto de partida.

A vida irradia a partir do quarto. É lá onde o dia nos desperta e a noite nos embala. É lá que nos entregamos aos sonhos, onde a vida pode se desdobrar sem intenção ou expectativa. É lá que nos sentimos protegidos para nos despirmos de vergonhas, enlaçados em vontades.
Sabe aquela sensação de dormir na sua cama, com seu cheiro, no seu travesseiro, reconhecer os sons que te rodeiam e poder cambalear no escuro até o banheiro sem esbarrar em nada? Não há viagem ou quantidade de fios da roupa de cama que entreguem ao corpo o que ele aprendeu a encontrar no próprio quarto.
De tanto nos ouvir e nos guardar, o quarto vai ganhando traços de tudo aquilo que nos emoldura em cada etapa da vida. Nasce com os anseios dos pais. Aos poucos, ganha caráter, reúne objetos e memórias que dão espessura à nossa história, mas sempre deixa uma fenda para o passado, em geral guardada em caixas que se equilibram sobre o armário, enquanto mantém o presente ao alcance das mãos.
Quando fechamos a porta, destrancamos partes de nós que, em qualquer outro lugar, nos fariam experimentar a mais crua vulnerabilidade. É, aliás, entendendo o papel da porta do quarto que ganhamos noção de privacidade, essa fresta que permite modular o que pode ser visto. Assim, modelamos uma versão pública, acessível, aberta a escrutínio, montada para ser coerente e atender às expectativas; e outra particular, inacabada, salvaguardada, onde ensaiamos o que buscamos vir a ser.
Na infância, a porta é administrada por outros. A privacidade cede espaço ao cuidado. Somos corpo, sono, choro, fome e supervisão. Aos poucos, a porta surge como inscrição de subjetividade. Ao poder controlá-la, vamos tecendo nossas bordas, entendendo nossos limites e nossa permeabilidade ao que se coloca diante de nós.
Esse trânsito com o quarto dialoga diretamente com o nível de autonomia que experimentamos na relação com os outros cômodos. O quarto constitui a parcela da casa sobre a qual se pode reivindicar alguma soberania. Apresenta-se como uma possibilidade de expansão material quando nada para além de suas paredes parece nos pertencer.
Não à toa ele passa por tantas transformações. Os móbiles pendurados sobre o berço, os primeiros papéis rabiscados, pôsteres colados com fita adesiva, brinquedos espremidos no armário, a penteadeira cheia de novas vaidades, a coleção de latinhas, os livros que vão se tornando mais pálidos e cheios de letras, os personagens das sagas favoritas, os primeiros amores. O quarto nos veste, nos expressa, mas, de tempos em tempos, não nos serve mais e precisa ser remodelado.

O aumento do custo dos imóveis, as instabilidades financeiras, os divórcios e outras turbulências têm mantido o quarto da infância vivo na realidade de muitos adultos que ficam por mais tempo na casa dos pais ou retornam a ela quando a vida parece desalojada. O quarto, que já serviu de casulo para as constantes mudanças da juventude, ressurge como espaço liminar quando a cama de solteiro, o armário pequeno e os resquícios do passado sugerem uma inadequação qualquer à espera de resolução.
As transformações que atravessam o quarto contemporâneo não se limitam à volta ou permanência de adultos na casa dos pais. Com a expansão da conectividade, o quarto perde a capacidade de nos isolar do mundo e isso não é trivial.
Não são mais as paredes, as sombras ou as fotos enfileiradas nas prateleiras que fitamos ao dormir ou despertar. Não é mais a cama, seus lençóis e a gentil mudança de temperatura a cada volta que nos conforta e nos embala quando despertamos do nada no meio da madrugada. Não é mais aquela mancha no teto que encaramos por horas, pendulando entre o tédio e o ócio quando não queremos nada. É o celular e sua luz azulada que nos enlaça e nos enreda, tornando mais custosa essa retirada de tudo aquilo que nos atravessa.
O celular se tornou um objeto onipresente, mesmo durante a noite. Em nossos momentos insones é ele que transforma um leve despertar, uma simples reacomodação na cama, um xixi rápido ou um gole d’água em horas e horas de dedo na tela sustentada a poucos centímetros do rosto, reconfigurando nossos rituais e, com eles, a forma como habitamos o tempo no quarto que já sustentou melhor momentos de silêncio, onde nada parecia acontecer.
Sem a porta simbólica que o quarto nos apresenta, nos tornamos um pouco mais expostos e encontramos menos espaço para separar aquilo que nos cabe daquilo que nos sobra. Quando as paredes perdem expressão e as imagens se tornam efêmeras demais para gerar identificação, corremos o risco de deixar de sonhar com nós mesmos.
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