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Dimensões da vida comum

Dimensões da vida comum

Existe um certo paradoxo na vida comum: ao passo que ela é o que de fato constitui nossa experiência e percepção da realidade, passa ao largo, muitas vezes, da nossa consciência, da nossa memória, das narrativas que contamos sobre nós.

No afã por organizar nossos pensamentos e priorizar aquilo que julgamos ter maior importância, automatizamos uma série de hábitos e rituais que marcam o ritmo de nossos dias. Passamos a não mais prestar atenção à forma como lavamos a louça, escovamos os dentes, preparamos um café, ou como os objetos estão dispostos na estante.

Na tentativa de dar forma à maneira como o regime de atenção estrutura a vida comum, sugiro olharmos para três instâncias que se alternam e se complementam no curso dos dias.

A primeira é a instância ordinária: uma dimensão corriqueira, repetitiva, preenchida por rotinas e que, em geral, traz uma sensação de continuidade e previsibilidade. Mais do que sentimentos e sensações, a camada ordinária se expressa como uma organização pragmática da vida, uma lista de tarefas com tudo aquilo que nos dispomos a fazer ao longo de um dia “normal”. Acordar, escovar os dentes, tomar café, ir para o trabalho, almoçar, trabalhar mais, voltar para casa, preparar o jantar, arrumar a casa, tomar banho, dormir, acordar… Um arranjo planejado e estruturado como num script claro, direto, objetivo, replicável, feito um método indispensável para tornar a vida viável ao longo do tempo. O ordinário, por conta disso, pode também ser visto como uma espécie de corrente, um fio condutor, onde diferentes dimensões da vida se conectam, se intercalam e se sobrepõem, garantindo alguma unidade.

A segunda é a instância extraordinária: a dimensão que rompe com o fluxo habitual, quebra a monotonia e se expressa como um marco, uma experiência, algo a ser lembrado, contado, noticiado e, em alguns casos, materializado na forma de objetos incumbidos de guardar a memória daquele acontecimento. Diferente do ordinário, o extraordinário costuma ser carregado de intensidade afetiva e, talvez por isso, adquira status narrativo e social, sendo constantemente compartilhado, revisitado, reencenado nas rodas de conversa. O início ou término de um relacionamento, a chegada de um filho, a partida de alguém, viagens, shows, passeios, acidentes, formaturas, aquisição de patrimônio, novos hobbies… Eventos que, em maior ou menor grau, representam uma ruptura no fluxo habitual e, por conta disso, ganham espaço em nossa atenção e reverberam ao longo do tempo, podendo representar marcos no enredo que tecemos sobre nós.

Por fim, e não muito comentada, vem a instância do infraordinário, melhor definida por Georges Perec como “aquilo que acontece quando nada acontece”. Particularmente gosto dessa definição porque nos lembra que, na vida comum, não existem hiatos, espaços vazios de experiência. Mesmo que, em muitos momentos, tenhamos a sensação de que nada está acontecendo — como se, por um lapso qualquer, a vida tivesse se tornado ilegível, insensível ou esvaziada — sempre há algo operando alheio à nossa consideração.

Mas, se há sempre algo acontecendo, de onde surge esse nada, esse vazio, esse apagamento temporal?

Uma opinião apressada poderia dizer que ele vem da irrelevância, da inutilidade ou da completa nulidade do que está acontecendo e que, portanto, pode ser descartado e varrido da memória. Contudo, ao jogarmos luz sobre o infraordinário, percebemos que essa sensação não nasce exatamente de uma escala de valor experiencial, mas do excesso de familiaridade com a própria experiência. O infraordinário é uma dimensão tão íntima, tão próxima, tão incorporada, que passa a fazer parte de nós sem que sequer nos demos conta de sua presença, pelo menos até que surjam furos, quebras e atravessamentos capazes de romper com a normalidade e trazer à superfície aquilo que, de tão reconhecível, nos parece invisível.

Sabe aquele incômodo que sentimos quando a carteira ou o celular não estão no bolso “certo” da calça? Ou quando algum desavisado decide sentar-se em nosso lugar à mesa, na praça, na sala de aula, no espaço de trabalho, na biblioteca ou em tantos outros lugares que se fazem nossos não por designação, mas por repetição, numa espécie de usucapião tácito que vamos criando pelos espaços que frequentamos e que, quando desrespeitado, nos causa uma sensação de despejo e irritação ao ter que procurar um outro lugar, um que claramente não é o nosso?

O infraordinário atua justamente em situações assim, em que o corpo aprende antes de a consciência se dar conta. Ritmos, pesos, distâncias, perspectivas, temperaturas, texturas, sons, disposições espaciais… uma ecologia sensível da familiaridade responsável por nos trazer um senso de normalidade e conforto. Repetimos um gesto simplesmente porque ele nos parece o mais apropriado, como se já soubéssemos o resultado do que está por vir com base em um repertório que não se organiza em palavras ou argumentos, mas ainda assim nos guia, trazendo estabilidade psíquica e continuidade existencial.

Olhar, portanto, para o infraordinário é talvez uma forma de resgatar a poética do banal, deixar emergir o sentido profundo de tantos detalhes aparentemente insignificantes que se aglomeram em nosso entorno e dão forma, corpo e fundo à nossa maneira própria de navegar no mundo.

Ao escavar o cotidiano em busca do infraordinário, nos dispomos a reencantar-nos com o toque da roupa favorita, com o tilintar das louças em um almoço de família, com o cheiro da casa dos pais, com a disposição das coisas em nossa mesa de trabalho, com toda uma coreografia de gestos, sensações e objetos capazes de tornar novamente evidente essa teia invisível que afirma nosso pertencimento a determinados contextos, afinando nossos sentimentos e entregando uma certa densidade material ao mundo, nos resgatando de meros automatismos da repetição e devolvendo profundidade ao trivial.

Contudo, não é só de poesia que vive o infraordinário e talvez seja justamente essa outra camada que torne essa instância ainda mais intrigante. Ao se posicionar abaixo do radar da consciência e só se tornar perceptível em momentos de ruptura, o infraordinário se mostra como a dimensão mais complexa de manejar, sendo responsável por uma certa rigidez em nossa forma de ser, visto que muitas vezes não nos damos conta da sua influência em nossas escolhas, preferências e inferências.

O infraordinário nos vicia naquilo que é familiar, nos ancora em contextos já conhecidos e opera de acordo com padrões de recorrência. Ou seja, se por um lado é fundamental para trazer estabilidade e consistência para a vida comum, poupando a energia de ter que escolher e avaliar a todo instante nosso próprio comportamento, por outro também nos estagna e nos solidifica nesse lugar, tornando processos de mudança muito mais difíceis e custosos energeticamente.

Isso fica evidente quando, por exemplo, decidimos inserir uma nova atividade em nossa rotina. Há um tanto de persistência, disposição e insistência dedicadas até que ela ganhe espaço e seja absorvida pela camada infraordinária. É por isso que tantas vontades e iniciativas se perdem no meio do caminho. O inverso nesse caso também é verdadeiro. Há uma série de hábitos e comportamentos que absorvemos ao longo da vida e que até já fizeram sentido e foram importantes em determinados momentos, mas que agora não nos servem mais e, às vezes, até nos prejudicam, mas ainda assim temos uma dificuldade enorme de romper com esses comportamentos adquiridos.

Numa analogia final que sobrepõe todas as instâncias e ilustra como elas operam e dão forma à vida comum, podemos dizer que o extraordinário funciona como uma espécie de voltagem em um sistema elétrico ao nos empurrar para novas possibilidades, gerar tensão e reverberar ao longo do tempo. Já o ordinário pode ser visto como uma forma de amperagem, algo que regula o fluxo, a corrente de estímulos que cabe na nossa vida de forma a trazer constância e linearidade. E o infraordinário é a potência, aquilo que calibra quanto de energia precisamos consumir para nos manter operando, deixando claro que existem atividades que demandam mais ou menos energia, orquestrando silenciosamente os pulsos e frequências que marcam o ritmo da vida.

Observar a vida comum, trazer atenção para tudo aquilo que preenche nossos dias, das coisas mais simples e corriqueiras às mais importantes e complexas, é um exercício autorreflexivo importante, que nos permite, de tempos em tempos, reavaliar o que nos toca, o que nos move, nos organiza e nos faz reconhecer a nós mesmos. É natural que, no curso dos acontecimentos, nos transformemos, enrijecendo e nos desmanchando, deixando-nos craquelar por aquilo que nos corta e molda nossas maneiras e manias. E só conseguimos nos recompor quando sustentamos esses momentos de desconforto, colocando em suspensão tudo aquilo que construímos em busca de estabilidade, mas que muitas vezes nos engessa em uma versão que já não evolui no mesmo passo que nós.

Repousar nossa atenção sobre as diferentes camadas da vida cotidiana é fundamental para romper com os achatamentos e automatismos que fazem com que, culturalmente, passemos a associar rotina a algo maçante e entediante, quando, na verdade, é ela que sustenta nossa experiência de mundo.