Bagunça como expressão da vida
Este artigo discute a bagunça a partir de sua dimensão cultural, social e estrutural e como isso influencia nosso nível de tolerância a ela.
Este artigo discute a bagunça a partir de sua dimensão cultural, social e estrutural e como isso influencia nosso nível de tolerância a ela.
Entrar na casa das pessoas faz parte do meu ofício como pesquisador. Sempre que alguém abre a porta é todo um universo que se abre. Uma profusão de cheiros, texturas, formas e cores me arrebata já na primeira fresta. E é ali, logo após os cumprimentos habituais entre duas pessoas que acabaram de se conhecer que costuma vir uma das frases que, na minha visão, melhor definem a cultura brasileira: Não repare na bagunça!
Embora seja um simples hábito, uma espécie de quebra-gelo que rompe o silêncio desconfortável entre os cumprimentos iniciais e minha condução até a sala, essa expressão carrega uma série de camadas culturais que organizam nossas relações.
Ao pedir para não reparar na bagunça, o anfitrião demonstra uma certa modéstia, típica de culturas latinas, subjugando o estado de ordem de sua casa para demonstrar humildade, na expectativa de que o convidado o tranquilize, o elogie ou se coloque na mesma posição.
Independentemente dos motivos que levam as pessoas a pedirem para que não me atente a suas bagunças, confesso que sou completamente fascinado por elas. Para mim, a bagunça é o que traz vida e movimento para uma casa. É por meio dela que consigo reconstituir cenas, entender comportamentos e ler uma série de hábitos e rituais que tornam a vida possível.
A bagunça é movimento, processo, ritmo, rito, gesto, rastro… Uma casa sem espaço para a bagunça é uma casa onde nada se cria ou se transforma. Uma casa sem bagunça é uma casa parada no tempo, onde os livros não se abrem, as louças não servem, o sofá não aninha e os brinquedos não convidam a imaginar outros mundos.
A bagunça é uma espécie de recurso necessário para que a vida aconteça. Ela se produz no uso, forma-se nos objetos que permanecem, nos deslocamentos incompletos, no que se acumula entre uma ação e outra. Não é apenas ausência de ordem, mas parte de uma organização prática, situada, muitas vezes inteligível para quem não participa dela.

Diante disso, se a bagunça faz parte da vida, é natural e, por vezes, importante para uma rotina equilibrada, por que somos convidados, ainda na porta, a desconsiderá-la? O que há na bagunça cotidiana que nos envergonha? Por que deveríamos escondê-la? Que desvio moral ela infringiria a nós?
Parte da resposta está no fato de que a bagunça nunca é julgada apenas pela sua presença. Ela é julgada pelo corpo, pela casa e pela posição social de quem a produz.
Manter uma casa com alto padrão de organização custa caro e toma tempo. É preciso ter armários, closets, guarda-roupas, sapateiras, caixas organizadoras, prateleiras, gaveteiros, estantes e, no limite, até depósitos (self storages) - onde os excessos do hiperconsumo podem ser armazenados alheios à vida cotidiana.
Nesse contexto, a bagunça pode ser vista como um signo de distinção social. Enquanto a elite paga para que a bagunça seja invisível e consome uma estética minimalista como sinal de status; as camadas populares precisam se dedicar à organização e limpeza da própria casa no pouco tempo livre que sobra, vivendo em espaços menores, compartilhado por várias pessoas, com menos móveis de armazenamento (armários, guarda-roupas, estantes) e, em alguns casos, convivendo com um acúmulo maior de coisas, visto que, nestes lares, a bagunça também funciona como uma espécie de estoque de segurança de objetos que ficam empilhados em algum canto como uma provisão para um futuro incerto, diante de uma história marcada pela escassez, onde o vazio não é estético, mas falta.
A bagunça também tem inflexões de gênero e incide de forma diferente entre homens e mulheres. Enquanto a bagunça masculina é tolerável e justificada, como se houvessem coisas mais importantes com que se preocupar; a bagunça feminina pode levantar questionamentos em relação a caráter ou competência. Essa diferenciação faz com que mulheres se sintam mais pressionadas, sejam menos tolerantes e fiquem mais incomodadas em ambientes desorganizados.
Segundo pesquisa realizada pelo IBGE em 2022, as mulheres brasileiras dedicam, em média, 9,6 horas a mais por semana do que os homens a tarefas domésticas ou ao cuidado de pessoas. Essa sobrecarga faz com que a bagunça tenha um efeito ansiogênico sobre elas e ajuda a explicar porque este é um tema que permeia tantas brigas e desentendimentos entre casais. Nunca foi só sobre a toalha molhada em cima da cama.
Se a bagunça é marcador de classe e gênero, naturalmente também é de raça, principalmente no Brasil, servindo de lente para discriminação e estigmatização. Embora a pressão por organização e limpeza recaia sobre todas as mulheres, uma mulher branca de classe média corre menos risco de ser rotulada como "negligente". Para uma mulher preta e periférica, manter a casa impecável não é só um hábito ou uma preferência, é uma forma de provar dignidade e rebater estereótipos racistas de "sujeira" ou "atraso".
Quando racializamos a discussão, rompemos com a esfera doméstica, uma vez que o conceito de "bagunça" ja foi muitas vezes usado pelo Estado para justificar intervenções urbanas. Um exemplo disso foi o movimento higienista do início do século XX que associava a desordem física dos espaços habitados por populações negras, como cortiços e favelas, à doença e ao vício. Bagunça, neste contexto, serviu de pretexto para despejos, demolições e expulsão de comunidades inteiras, como no caso do "Bota-Abaixo" no Rio de Janeiro, reforma urbana radical que empurrou a população negra e pobre para os morros e subúrbios, sob o pretexto de sanitizar o centro da cidade.
Ao olharmos de perto sobre quem recai o peso de uma casa organizada é possível inferir que o nível de ordem imposto ao universo doméstico não é exatamente um traço cultural, mas resquício de um modelo de dominação patriarcal e escravocrata que ainda ecoa nos dias atuais. Basta olhar para nossa miscigenação, nosso sincretismo, nosso carnaval, nossas gambiarras, nosso jeito próprio de estar no mundo, nossa relação permissiva com o improviso, a mistura e a informalidade.
A bagunça no Brasil parece menos marcada pela condenação moral do que em culturas onde a ordem ocupa um lugar mais central. Abrir mão da bagunça, enchê-la de vergonha e culpa é também uma forma de castrar nossa criatividade, nossa expressividade e tentar nos encaixar em uma taxonomia cultural que não nos cabe.
A bagunça talvez seja uma das últimas formas pelas quais o cotidiano insiste em escapar da domesticação completa. Ela lembra que viver produz marcas. Que existir desloca objetos. Que toda casa habitada é também uma casa em permanente transformação. Talvez o problema nunca tenha sido a bagunça. Talvez a bagunça seja apenas a forma que a vida encontra para permanecer visível